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Roberta, 29 anos... Moro em Petrópolis, onde nasci, e escrevo histórias como essa desde os 13 anos de idade. Faz tempo... Esssa história é um adaptação de uma que escrevi aos 14 anos de idade. Lógico que a adaptei para os dias hoje, deixando-a mais atual. Amo escrever! Quem sabe um dia publique um livro...

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Ficção sobre cinco amigas adolescentes (Naíra, Yedda, Emilene, Tainá e Cecília). Garotas que estudam no mesmo colégio e que por se sentirem excluídas de tudo, criam uma espécie de clube chamado Clube das Excluídas. Juntas vivem e compartilham muitas histórias, descobertas, alegrias e também desilusões e aprendem muito com isso...
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coinscidência! Os nomes de pessoas assim como os de instituições e locais também não são verdadeiros.

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    Capítulo 38 – Fora de rumo

    Desde que voltara a andar com “As L”, Cecília estava diferente. Até o seu jeito estava mudando e isso estava incomodando suas amigas do Clube.

    Certo dia, no recreio, Tainá, Naíra e Yedda comentavam a seu respeito, já que nem no colégio Cecília ficava mais com as amigas.

    - Ela tá tão estranha... – disse Tainá.

    - Vai ver enjoou de ser Clube das Excluídas e sentiu saudades de ser uma das “poderosas e populares do Colégio Atenas!” – disse Yedda.

    - Ai, gente, isso é tão chato... – suspirou Tainá.

    - Chata está ela. Vocês já perceberam ou só eu percebi? Ela tá toda fútil igual a elas. Vocês acreditam que ela tá até caçoando e ridicularizando os outros como elas fazem? E isso não foi ninguém que me contou. Eu vi! – disse Yedda.

    - Ai, Yedda, não acredito. Ou, pelo menos não quero acreditar... – disse Naíra chateada. – Poxa, a Cissa não é assim. Eu não entendo.

    - Eu também não, Naíra. Ela sempre foi tão legal e agora tá assim. O Neto me disse que ela vive na casa dele agora, tá sempre colada com a Vivi. Nossa, sei que ela é minha cunhada, mas ela é insuportável. Nem parece que é irmã gêmea do Neto! – disse Tainá.

    - É verdade. Em pensar que ela já foi namorada do Heitor... Cruzes! – disse Yedda. – Gente, eu não me conformo com isso. O que será que deu na cabeça loira da Cissa pra ela ficar assim? Vai ver é por causa disso mesmo. Ela é loira e as duas nojentas também são. Vai ver uma questão de loirice.

    As amigas riram da piadinha sem graça da amiga. Mas, Naíra, voltando a ficar séria, completou:

    - Pensando bem, acho que sei o que aconteceu, gente.

    - O que então? Fala logo, que eu tô curiosa. – disse Yedda.

    - Vocês não vão ficar chateadas comigo? – perguntou Naíra temendo a reação de suas amigas, já que falaria exatamente o que estava pensando.

    - Eu não. Você sabe que comigo não rolam essas coisas. – disse Tainá.

    - E você, Yedda? – perguntou Naíra.

    - Olha só, vou avisando que sou uma mulher grávida e que por isso estou muito sensível. Por isso, pega leve no que vai falar, heim. – disse Yedda.

    - Eu acho que a Cissa tava é se sentindo muito sozinha ultimamente e por isso decidiu procurar as antigas amigas dela. – respondeu Naíra.

    - Sozinha?! Como assim? E a gente? – perguntou Tainá.

    - E a gente? Presta atenção, Tainá. Eu te pergunto: o que a gente tem feito do Clube ultimamente? A gente mal se reúne mais. A gente mal conversa uma com a outra e isso só aqui no colégio. O Clube não se reúne mais como antes. Cada uma resolveu tomar o seu rumo, é isso. Até porque muitas coisas aconteceram para que tudo chegasse ao ponto que está. Por exemplo, a Yedda ficou grávida e agora mora com o Heitor. A sua cabeça agora tá na gravidez e em todas as mudanças que vieram com ela, não é, Yedda? – disse Naíra.

    - É. É verdade. – disse Yedda. – Mas e você e a Tainá? A Emi eu sei, foi para o Japão e agora tá super difícil falar com ela. Mas vocês duas não.

    - Bom, eu acho que não mudei não... – disse Tainá.

    - Ah, Tainá. Você mudou sim. – respondeu Naíra.

    - Aonde? Eu continuo aqui, não me mudei... – disse Tainá.

    - Ah, Tainá, fala sério! Pára de se fazer de desentendida. O lance todo é que desde que você começou a namorar com o Neto e que pôs essa aliança de compromisso no dedo, que vocês dois não se largam mais. – disse Naíra.

    - Ih, é verdade, Tainá, a Naíra tá certa. Vocês dois formam o verdadeiro casal-grude. Não se largam nunca. – disse Yedda.

    - Mas você não pode falar nada, Yedda, que você e o Heitor também são. E já eram bem antes de você engravidar. – disse Tainá contra-argumentando.

    - Tá vendo? Vocês duas mudaram muito antes disso tudo acontecer. Desde que começaram a namorar, que deixaram o nosso Clube de lado. E desde então eu e a Cissa ficamos sozinhas. Só que agora quem tá sozinha de vez sou eu, porque a Cissa se cansou de tudo e voltou a andar com aquelas duas. Poxa, gente, será que vocês se esqueceram do nosso juramento de jamais deixarmos que os namorados, ficantes e etc. nos separassem? Vocês se esqueceram que nós prometemos uma para as outras que seríamos amigas até o fim? E olha só, cada uma foi deixando o Clube de lado aos poucos e, o pior, sem ao menos se dar conta disso. Foi preciso a Cissa voltar a ser uma das “L” pra gente acordar. – disse Naíra.

    13h19 |
    Capítulo 38 – Fora de rumo (continuação)

    Tainá e Yedda se entreolharam muito sem graça. Sensível como era, Tainá ficou com os olhos marejados e Yedda, respirou fundo e disse:

    - Você tá certa, Naíra. A gente deu mole mesmo. Mas vamos fazer o que para recuperar a amizade da Cissa, heim?

    - Eu não sei, gente. Sei lá. Acho que a gente tinha que mostrar pra ela que o Clube ainda existe por mais que as coisas tenham mudado e mostrar que ainda somos amigas dela e que ela é muito importante pra gente. – disse Naíra.

    - Ai, Naíra, será que isso tudo não passa de ciúmes da nossa parte. O que é que tem ela ter outras amigas além da gente? – disse Tainá.

    - Não é o fato dela ter outras amigas. O lance é que desde que ela voltou a andar com elas, é que ela tá mudada. E não é uma mudança positiva, mas negativa. Não sei não, gente, mas eu tô preocupada com a Cissa. – disse Naíra.

    - Gente, tive uma idéia! E se gente for visitá-la hoje à tarde? – propôs Tainá.

    - Se ela parar em casa, tudo bem. – disse Yedda não muito otimista.

    - É só a gente falar com ela que gente vai lá hoje à tarde. Que tal? Já é? – disse Tainá.

    - Já é. Perfeito. – concordou Naíra prontamente. – E você, Yedda, concorda ou não?

    - Tudo bem, meninas. Eu topo.

    Então combinaram e na sala de aula falaram com Cecília, que realmente estava diferente.

    - Ih, gente, não sei se vou estar em casa hoje à tarde...

    - Ah, Cissa, faz tanto tempo que a gente não conversa... Poxa, você vai deixar a gente assim? – disse Yedda apelando para a chantagem emocional.

    Cecília suspirou e disse:

    - Tudo bem. Eu desmarco o que eu ia fazer e gente se reúne hoje à tarde. Mas aonde?

    - Na minha casa. – disse Tainá.

    - Então tudo bem. Vou telefonar pra minha casa avisando que vou pra sua e a gente se encontra na saída. – disse Cecília.

    “Se encontra na saída? Como se gente estudasse em salas diferentes!”, pensou Naíra meneando a cabeça.

    Então, na saída do colégio, Tainá, Yedda e Naíra ficaram esperando Cecília, já que esta fora falar com Lizandra e Vivi. De longe puderam ver a cara que as duas fizeram quando Cecília lhes disse que não sairia com elas e sim com as amigas do Clube.

    - Nojentinhas! Urgh! Não suporto essas meninas! – disse Yedda.

    - Nem eu! – concordou Tainá.

    Então foram para a casa de Tainá, onde almoçaram e enfim puderam conversar como há muito tempo não faziam.

    Foi então que tocaram no assunto que preocupava tanto as meninas: a mudança de Cecília.

    A princípio, ela bem que discordou do ponto de vista das amigas. Mas por fim, acabou reconhecendo que havia mudado e se abriu:

    - Sei lá, gente, não sei o que há comigo. Pra dizer a verdade, nem tô feliz com as coisas do jeito que estão. Tô me sentindo sozinha, meio fora de tudo, fora de rumo. Parece que tô meio perdida, sei lá... – disse começando a chorar.

    - Ei, o que tá pegando, heim, Cissa? Por que você tá deprimida assim? – perguntou Tainá acariciando seus cabelos.

    13h16 |
    Capítulo 38 – Fora de rumo (continuação)

    - É, Cissa, o que há com você? Vai, fala. – disse Naíra.

    - Eu não sei. Tô me sentindo sozinha, parece que tá dando tudo errado na minha vida. Primeiro aconteceu aquilo tudo com o Olavinho, dele me usar, me fazer de boba. Depois eu fiquei com o Wendell e quando eu tava começando a gostar dele, ele me trocou pela ex! E quando eu resolvi enfim ficar com o Gaspar, ele me deu o maior toco. O que há de errado comigo, heim? – disse Cecília inconformada.

    - Cissa, pára com isso! Você é linda, não tem por que ficar assim desse jeito. Vai ver o cara certo ainda não apareceu pra você. – disse Tainá.

    - Gente, pra vocês terem uma idéia do quanto que eu tô me sentindo fora de rumo, vocês acreditam que sábado, eu fui numa festa e tentei ficar com o Rubens? – disse Cecília. – Com o Rubens! Vê se pode?

    Nesse instante, o coração de Naíra gelou parecendo que iria parar de bater a qualquer momento. Respirou fundo e manteve a calma, como se não tivesse ouvido nada de mais.

    - O que isso, Cissa? Fala sério! – disse Yedda boba com a notícia.

    - Eu e as meninas fomos numa festa na casa do Téo, aquele da turma três mil e cem. Cara, eu bebi, fiquei meio alta. Mas não dei vexame, isso não, graças a Deus! E me lembro de tudo o que eu fiz, falei... enfim. E o pior é exatamente isso. Eu tava na festa, já tinha ficado com um carinha e vi o Rubens lá, sozinho. Não sei o que me deu. Daí eu parti pra cima dele, só que ele desviou o rosto e não me deixou beijá-lo. Disse que não queria ficar comigo. Assim, na minha cara. – disse Cecília.

    - Cissa, que horror! Aonde você tava com a cabeça, criatura? – perguntou Yedda. – Beber desse jeito, se jogar pra cima dos caras? Você não precisa disso.

    - Não precisa mesmo. Você é linda, os garotos é que correm atrás de você. Não tem necessidade de beber, de nada disso. – disse Tainá.

    - Eu sei. E morro de vergonha disso tudo. Não tenho cara pra olhar para o Rubens depois disso. Nossa, ele meu amigo. – disse Cecília.

    - E o que ele fez depois disso, Cissa? – perguntou Naíra morrendo de curiosidade.

    - Ah, ele disse que não queria ficar comigo. Na festa foi só o que me respondeu. Mas, no dia seguinte eu estive na casa da Vivi e ele tava lá, então a gente pôde conversar. Eu não tinha cara para olhar pra ele, muito menos falar, de tanta vergonha que eu estava! Mas aí ele veio falar comigo e ainda me deu o maior sermão que eu não devo beber, que devo me cuidar, que isso não era coisa pra mim. Olha só quem fala! O cara que mais enfiava o pé na jaca nas festas do Colégio Atenas! – disse Cecília.

    - É, mas ele tá coberto de razão em te falar isso, Cissa. – disse Tainá.

    - E o que mais ele te disse? – perguntou Naíra ainda curiosa.

    - Ele disse que não ficou comigo não só por causa da bebida, mas também que não queria ficar com ninguém. Disse que tá gostando de uma garota. Vocês acreditam? – disse Cecília.

    - De quem? – perguntou Yedda super curiosa.

    - Ah é, gente! E a Emi? – perguntou Tainá.

    - Pelo que parece ela é passado na vida dele.  – disse Cecília.

    Mais uma vez o estômago de Naíra gelou. Aliás, não só o estômago, como o rosto e todo o resto do corpo!

    - O que foi, Naíra? Tá se sentindo bem? – perguntou Tainá ao ver a palidez da amiga.

    - Nada, gente. Eu tô bem. – disse Naíra tentando disfarçar. – Então quer dizer que a fila andou para o Rubens?

    - Pelo visto sim. – respondeu Yedda.

    - Gente, eu tô super curiosa pra saber quem é a tal garota. Perguntei a Vivi e a Liz se elas sabem, mas nenhuma sabe de nada. Nem a Luma, que tá sempre por dentro de tudo. Perguntei a ele, mas ele não quis me dizer. Ficou fazendo o maior mistério. – disse Cecília.

    Nesse instante, Naíra respirou aliviada. Seu segredo continuava intacto.

    - Agora, eu preciso contar uma coisa que tá me corroendo por dentro. – disse Cecília.

    - O que, Cissa? – perguntou Tainá preocupada. – O que foi que aconteceu?

    - Gente, eu tô tão sem graça... Nem eu consigo entender como fui fazer uma besteira dessas... – disse Cecília.

    - Ai, Cissa, pára de rodeio e fala logo que besteira tão terrível é essa que você fez! – disse Yedda como sempre impaciente.

    - Eu fiquei com o Olavinho. – disse Cecília muito constrangida.

    - Como é que é?! Não acredito! – disse Naíra boquiaberta.

    - Nem eu! Você ficou maluca?! Ficar com o Olavinho?! Com o sem vergonha, filho da mãe, mau caráter do Olavinho?!! – exclamou Yedda inconformada com a revelação.

    - Ai, gente, se arrependimento matasse... Aonde eu tava com a minha cabeça, heim? – disse Cecília.

    - Eu também tô me fazendo a mesma pergunta... Aonde você estava com a cabeça, Cissa? Depois de tudo o que ele te fez, você ainda ficou com ele?! – perguntou Naíra também inconformada.

    - Mas porquê? Você não é maluca, Cissa... Deve de ter tido algum motivo pra fazer uma bobagem dessas, né? – disse Tainá.

    - Ah, Tainá... É como já falei, eu tava, quer dizer, tenho andando muito confusa ultimamente. Sei lá, parece que tô meio fora de rumo. Tava carente, é isso. Aí, junta a bebida mais a minha carência, mais o safado me dando mole, jogando charme. Pronto: somando tudo deu no que deu. Na hora eu me deixei levar. Só que depois eu me arrependi amargamente. – disse Cecília.

    - Puxa vida, heim, Cissa... Caramba! Que bola fora! – disse Naíra ainda inconformada.

    - Ah, gente, mas também foi a primeira e última recaída de Olavinho da minha vida! Desse mal eu não sofro nunca mais!  - disse Cecília decidida.

    - Eu espero... – disse Naíra.

    - Nós esperamos, né! Pro seu bem, amiga. Afinal, ele já te fez sofrer até demais, não? – disse Yedda.

    - Com certeza. – concordou Cecília. – Vamos mudar de assunto? Esse é muito desagradável...

    Mudaram de assunto. E resolveram falar sobre a gravidez de Yedda, afinal a barriguinha começava a aparecer. Estava com quase quatro meses.

    Porém, logo o assunto da festa voltou à tona.

    - E a Vivi e Lizandra? O que elas fizeram? Se jogaram para cima dos caras da festa também ou se comportaram? – perguntou Yedda.

    - A Vivi tentou ficar com o Rubens também, mas não conseguiu. Aliás, ele não ficou com ninguém. Ficou o tempo todo sozinho. E a Lizandra tá namorando firme e estava com o namorado na festa.

    Conversaram mais um pouco e prometeram que dali por diante o Clube voltaria a ser como antes. Ninguém mais deixaria a outra sozinha.

    Cecília ainda prometeu que dividiria melhor seu tempo entre as amigas do Clube e as amigas populares.

    Quanto a Naíra, teve que se cuidar, afinal, curiosas e determinadas como eram suas amigas, sabia que se desse alguma bobeira, descobririam que estava com Rubens. E quem poderia prever a reação que teriam?

     

    12h49 |
    Capítulo 37 - Mudada

    O tempo estava passando e Naíra percebia que as coisas já não eram mais as mesmas, ou que pelo menos não passava de uma impressão sua. Uma impressão um tanto pessimista, aliás. Tudo porque parecia que havia voltado à estaca zero de sua vida social. Sentia-se sozinha outra vez. Já não tinha tanto contato com suas amigas, até mesmo com Cecília que morava no mesmo prédio. O único momento em que se encontravam era no colégio, onde também encontrava Yedda e Tainá. No mais, o Clube já não era o mesmo. Cada uma estava vivendo sua própria vida, talvez, e na mesma não havia mais espaço para ela, concluía tristemente.

    Cecília estava procurando se ocupar de várias coisas e havia voltado a conversar com Vivi e Lizandra. Aliás, quase não desgrudavam mais. Parecia querer a todo instante deixar de lado aquela “vidinha pacata”, palavras suas, de quem mal saía, mal curtia, enfim. Saía quase todo fim de semana acompanhada das duas “L” e já não convidava Naíra com tanta freqüência, já que sabia que não se simpatizava com nenhuma das duas.

    Tainá quando estava nos treinos, estava com Neto. Já não se desgrudavam e usavam até aliança de compromisso. As duas só conversavam mesmo à noite e isto quando Neto estava na faculdade.

    Yedda, então, nem se fala! Agora morando na casa de Heitor e com a gravidez, não tinha cabeça para mais nada. Dela, Naíra sequer tinha o direito de cobrar alguma coisa.

    Pensando bem, não tinha o direito de cobrar nenhuma delas, afinal, cada uma estava seguindo com a sua própria vida e isto não era errado. Porém, sentia-se deslocada, deixada de lado e isso era muito chato.

    Lembrava das longas tardes de papo e de como uma prometera para a outra não abandonar a amizade que as unia por nada. Tudo agora não passava de lembranças e de promessas não cumpridas.

    Mas pensando bem, não eram só suas amigas que tinham mudado. Ela própria também já não era mais a mesma. Havia mudado em vários aspectos. Tudo bem que ainda continuava tímida, mas já não era aquela menina que tinha prazer em se isolar ou que perdia tempo sonhando acordada com Otávio. Logo, decidiu que iria sair sim sem depender de companhias e etc., que não ia mais ficar trancada em casa esperando que suas amigas lhe dessem atenção, afinal não era nenhuma coitadinha! E decidiu, por fim, que não seria infantil a ponto de brigar com elas por causa disso.

     E foi num dia desses em que resolvera ir sozinha ao cinema que encontrou Rubens, que também estava sozinho.

    Naíra então acenou para ele por educação, já que nunca haviam conversado direito até então. Apenas se cumprimentavam com um oi. Porém, ele se aproximou e a cumprimentou com dois beijinhos no rosto como nunca fizera antes.

    - Ué, por que suas amigas não vieram? – perguntou ele.

    - Ah, cada uma tem lá as suas coisas e além do mais nenhuma gosta desse tipo de filme. – respondeu um tanto sem graça.

    Correção: Emilene gostava, mas ela estava no Japão e mesmo que não estivesse, só de tocar no seu nome não seria uma boa.

    Era um filme de suspense dos bons, bem no estilo que elas duas gostavam e o restante do Clube detestava! Rubens também curtia este estilo e se prontificou a fazer companhia a ela.

    Sentaram-se lado a lado e enquanto o filme não começava, ficaram comendo pipoca e conversando sobre vários assuntos banais. Depois assistiram juntos ao filme.

    Enquanto assistia, Naíra pensou que Emilene realmente tinha razão, que ele não era nenhum playboyzinho idiota como imaginavam. Até que era legal e gente boa.

    Após o filme, ele a convidou para tomar um lanche e ela aceitou.

    Numa lanchonete na praça de alimentação conversaram mais um pouco e Naíra riu um bocado com as piadinhas e abobrinhas que ele soltava entre um comentário e outro. Era mesmo divertido e concluiu que havia feito bem em sair naquele dia. Viu também que tinha muita coisa em comum com ele, que tinham gostos bastante parecidos.

    Ao saírem, se despediram como amigos.

    - Qualquer dia a gente se esbarra por aí. De repente, a gente até pode combinar alguma coisa, o que acha? – ele disse.

    - É verdade. De repente... – respondeu.

    Sinceramente não pensou que pudesse rolar mais nada. No mais, tinha ganhado mais um amigo e só. Porém, sequer imaginava que mais coisas estavam para acontecer.

    Dias depois, sua tia Verônica a convidou para passar um final de semana na praia. Era feriado prolongado e sua mãe concordou em deixá-la ir. Naíra aceitou na hora, até porque além de continuar se sentindo um tanto sozinha, sua tia era o máximo! Era a tia mais divertida que tinha.

    Foram para a casa de praia dela numa cidade do litoral fluminense e o tempo até estava legal. O outono havia acabado de chegar, mas com as mudanças climáticas de hoje em dia, mais parecia verão, então, logo daria para pegar uma praia.

    Chegaram pela manhã na casa de praia, mas antes de qualquer coisa, tiveram de ir para o supermercado abastecer a despensa e a geladeira, que estavam vazias. Até que não foi tão ruim, pois Naíra até que curtia um supermercado, por incrível que pareça!

    Após o almoço, enfim puderam ir para a praia.

    23h06 |

    Entrou na água, furou algumas ondas e levou alguns caldos também. E saiu sem graça depois de levar um caixote daqueles e quase perder a parte de cima do biquíni.

    Sentou-se então na areia ao lado da tia e ficou observando o movimento.

    De repente de longe avistou um rosto conhecido. Era Rubens acompanhado de alguns rapazes. Pensou em acenar, mas como ele não estava vendo, desistiu, até porque ficar acenando para sem que a visse seria ridículo!

    Sentiu então vontade de tomar um sorvete e como não tinha nenhum vendedor por perto, foi sozinha até um quiosque e lá encontrou Rubens. Quer dizer, foi encontrada por ele.

    - Naíra...

    - Oi. – disse virando-se para ver a pessoa que a chamara. – Rubens! Tudo bom?

    - Tudo. Nossa, nem esperava te encontrar por aqui...

    - Eu também não... Veio passar o feriadão na praia?

    “Que pergunta idiota, Naíra! Não ele foi passar o feriadão na lua e este cara aí na sua frente é só um clone dele, imbecil!”, pensou ela.

    - É. Tô na casa de uns parentes. E você?

    - Também. Tô com a minha tia.

    - Poxa, legal. De repente a gente se esbarra por aí de novo.

    - É.

    Pegou então seu picolé e voltou para o lado da tia na areia.

    Algumas horas, quando voltava para casa, o reencontrou no caminho.

    - Não falei que a gente ia se esbarrar por aí? – ele disse.

    - É verdade.

    - Bom, eu... Tava pensando em te fazer um convite. Você vai fazer alguma coisa hoje à noite?

    - Não, a princípio... Por quê?

    - Tem um barzinho aqui na praia que meus primos disseram que é show. Rola música ao vivo, tem um clima bacana e a galera costuma ir lá. De repente, se você não estiver fazendo nada, pode ir com a gente. O que você acha?

    - Nossa, acho legal. Vou falar com a minha tia, porque, você sabe como é né, eu tô com ela e...

    - Claro. Vou te dar o número do meu celular e aí você me liga e a gente combina, tá?

    - Tá.

    Naíra então foi para casa entusiasmada com o convite, afinal, à noite seu programa até domingo, quando voltasse para casa, seria assistir a novela com a sua tia e só. Em casa contou-lhe do convite e perguntou se poderia ir.

    - Contanto que você não chegue muito tarde em casa, Naíra, tudo bem. Ah, e que tome cuidado, afinal, por mais tranqüilo que pareça aqui, não se iluda. Os perigos existem e se você der mole... Mas diz aí, esse rapaz é gatinho?

    - Ai, tia, fala sério! É só um amigo, nada mais.

    - Amigo, Naíra? Ah, minha sobrinha... Fala sério, você! O rapaz te convida pra um programinha bacana desses e você nada? Fala aí, ele é ou não é um gatinho?

    - É, ele é, tia. Só que a gente não tem nada a ver, até porque ele já foi namorado de uma das minhas melhores amigas.

    - E que mal há nisso, meu bem? Você mesma disse: ele JÁ FOI namorado dela, quer dizer que não é mais.

    - Tia!!! Credo!!!

    - Credo nada, Naíra. Você nunca ouviu falar que a fila anda? Pra ele a fila já andou e quem sabe você não é a próxima?

    - Ai, tia, a senhora heim... Ninguém merece!!!

    Naíra respondeu isso e saiu da cozinha pisando duro. Foi para o banheiro e tomou um refrescante banho. Enquanto isso pensava nas palavras da tia. Ela estava maluca se pensava que ela, Naíra, teria coragem de ficar com Rubens sabendo que fora namorado de Emilene. Nem pensar!

    Ao sair do banho telefonou então para o celular dele e lhe disse que iria ao barzinho. Então combinaram de se encontrarem em frente à padaria do bairro, que era caminho para ambos.

    Desligando o telefone, foi se arrumar e, como sempre, ficou indecisa quanto a que roupa vestir.

    - Olha só: toda em dúvida quanto a roupa que vai colocar. Se não tivesse nada a ver como você disse, você colocaria a primeira que tirou da mala, Naíra. – disse tia Verônica.

    - Ih, tia, fala sério! Só tô indecisa porque gosto de me vestir bem e só. Não tem nada a ver com o Rubens.

    - Ah, não. Tá bom. Vou fingir que acredito... – disse saindo do quarto.

    Naíra ficou fula da vida. Só a sua tia mesmo para implicar desse jeito!

    Decidiu então vestir uma roupa básica. Pôs um jeans e uma regatinha e pronto. Calçou um par de rasteiras, pôs uns acessórios e estava pronta.

    - E aí: tô bonita?

    - Você já é bonita, Naíra. Mas acho que deveria pôr um salto maior. De rasteirinha? Fala sério!

    - Ah, tia, não tô a fim de pôr salto alto não...

    - Nossa, nem parece que é da mesma família que eu! Não acredito que você se encontrar com este rapaz com essa sandália sem graça e com essa roupa, Naíra! Volta lá no quarto e muda de roupa... Ou pelo menos calça uma sandália de salto e capricha na maquiagem.

    - Tia, eu não vou me encontrar com o Rubens. A gente só vai sair com os primos e com os amigos dele daqui da praia. Só. Nada demais. Olha, só, já vou indo que já tô atrasada, tá? Beijinhos...

    Então, debaixo dos argumentos de tia Verônica, Naíra saiu para se encontrar com Rubens e seus amigos.

     

    23h02 |

    Ao chegar à padaria, eles ainda não haviam chegado. Olhou no relógio e viu que tinha se adiantado alguns minutinhos. Porém, logo chegaram.

    Rubens então a cumprimentou com os dois beijinhos no rosto como da outra vez e a apresentou aos primos e amigos. Havia algumas meninas no grupo e Naíra não se sentiu deslocada no meio daquele monte de rapazes do grupo, como temeu. As meninas, aliás, até que eram legais. Duas eram primas dele.

    Foram então a pé para o tal barzinho que ficava na orla, bem pertinho dali.

    Chegando lá, tiveram dificuldades de encontrar algumas mesas vagas, mas logo conseguiram. Realmente o bar era badalado e muito legal. Uma banda tocava música ao vivo, repertório de pop-rock nacional e internacional, bem jovem mesmo.

    Logo pediram bebida e alguns petiscos para beliscar enquanto conversavam.

    A turma de Rubens era bem legal mesmo e Naíra se enturmou fácil. Logo estava rindo e conversando sobre várias coisas com eles muito à vontade.

    Passado algum tempo, Rubens lhe disse ao pé do ouvido:

    - Meu primo tá a fim de te conhecer...

    - Teu primo? Qual deles?

    - O Danilo. Pô, ele te achou uma gatinha, tá super a fim... E aí?

    Naíra pensou um pouco. Até que achou o rapaz bonitinho, mas não sentiu que tinha alguma coisa a ver ficar com ele. Até porque ele tinha cara de muito novinho, de que tinha uns quinze anos e ela já estava com dezessete. Não que idade fosse problema, mas no caso dele estava na cara demais de que era um bebê. Então respondeu:

    - Ai, Rubens... Sei lá... Ele é meio novinho, né...

    Rubens riu achando graça da sua resposta.

    - Então tá. Eu já imaginava. Até falei pra ele que você era muita areia pra caminhãozinho dele...

    - Ai, também não é pra tanto né!

    Ao ouvirem-na dizer isto, quem estava mais próximo caiu na risada, afinal só não percebeu do que se tratava quem estava muito distraído mesmo. Naíra então ficou roxa de vergonha.

    Danilo nem esquentou a cabeça, partindo para o ataque com outras meninas que estavam no bar.

    O clima estava tão gostoso que nem viu o tempo passar. E quando olhou no relógio, viu que já tinha passado das onze meia da noite.

    - O que foi? Tá preocupada? – perguntou uma das primas de Rubens vendo-a olhar o relógio.

    - É a hora. Minha tia me pediu para que não chegasse muito tarde em casa e já é quase meia noite. Nem vi a hora passar. – respondeu.

    - Liga pra ela. De repente, ela deixa você ficar mais um pouco aqui com a gente. – propôs a prima.

    - Ah é,  e a gente te leva em casa. – propôs a outra prima.

    - Mas vocês só vão embora quando o bar fechar né? – perguntou Naíra.

    - Com certeza. – respondeu uma delas pondo uma batata frita na boca.

    - Então... Não vai dar, gente. Acho melhor eu ir agora, porque senão ela vai ficar preocupada. E aí, vocês sabem como é, né...  – disse Naíra meio sem graça. – Amanhã a gente se vê de novo na praia.

    - Ótimo! Foi um prazer te conhecer, Naíra! – disse uma das meninas do grupo levantando-se para se despedir dela.

    Rubens vendo que Naíra estava de saída, veio logo:

    - Ué, você já tá indo embora? Por quê?

    - A hora. Tenho que ir porque senão a minha tia fica preocupada e ela tá sozinha... Amanhã a gente se vê na praia. – respondeu ainda um tanto sem graça.

    - Então eu te levo em casa. – disse ele.

    - Não, não precisa. Vou sozinha, não é longe. E você tá se divertindo, não é justo.

    - Não, eu te levo em casa. Depois eu volto, não tem problema. Vamos?

    Pela insistência dele, ela acabou aceitando e foram juntos caminhando até a casa de sua tia.

    - Nossa, gostei muito do pessoal e do barzinho também. – disse Naíra.

    - É, eles são mesmo muito gente boa. E o barzinho também. Que bom que você gostou! Se enturmou rápido né?

    - É... O pessoal é muito simpático, as suas primas são umas fofas! Muito legais mesmo!

    O papo foi rolando, até que, quando estava próximo ao portão da casa da tia Verônica, ele lhe disse:

    - Posso te falar uma coisa?

    - Pode.

    - Você não vai ficar chateada?

    - Não. Por que eu poderia ficar chateada?

    - Ah, sei lá...

    - Fala.

    - Eu gostei muito de você ter dado o toco no meu primo. – ele disse com um sorriso maroto nos lábios.

    - Ué? Por quê?

    - É que se você ficasse com ele, o caminho já não ia mais ficar livre pra mim.

    Naíra ficou boba com o comentário dele. Não esperava por isso. Olhou para ele boquiaberta e viu que ele ainda estava com aquele sorrisinho nos lábios, olhando fixamente para ela.

    - Nossa, eu tô louco pra te dar um beijo, sabia? – ele disse se aproximando mais.

    22h53 |

    O coração dela então disparou. E disparou mais ainda quando ele a beijou. “Nossa, que beijo!”, ela pensou deixando-se levar.

    Rubens então lhe deu a mão e caminharam mais um pouco. Encostaram-se então num muro e ficaram juntos namorando por algum tempo.

    Foi então que o celular de Naíra vibrou. Era sua tia.

    - Acho que tenho que ir embora. – disse sem graça.

    - Amanhã a gente se vê?

    - Bom... Sim né...

    - Então tá. Vou contar os minutos só pra te ver de novo. – disse ele beijando-a novamente.

    Quando entrou em casa, a ficha ainda não havia caído direito.

    - Com essa cara de quem está com a cabecinha nas nuvens, minha sobrinha, só posso crer que eu estava mesmo certa. Correto? – disse tia Verônica esperando na sala.

    Naíra não respondeu nada. E precisava? Sua cara falava por ela.

    Tia Verônica então riu e disse:

    - Só não te dou uma bronca pela hora pra não estragar a sua noite, menina! Mas que isso não se repita, viu?

    - Tá, tia. Valeu, heim?

    Ao se deitar aquela noite, o sono até demorou a chegar de tanto que Naíra pensava no que havia acontecido. Ainda não acreditava que havia ficado com Rubens.

    “Meu Deus, eu fiquei com ele. Caramba! Nossa... Foi tão bom... Ele beija tão bem...”, pensava enquanto olhava para o teto do quarto. Até aquele dia só havia ficado com um único garoto: Otávio. Nunca havia beijado outro senão ele. Até então. Estava feliz. Não se arrependia. Quer dizer, não até se lembrar de uma quarta pessoa no meio disso tudo: Emilene. Será que ela ficaria chateada se soubesse que havia ficado com o seu ex? Talvez não. Talvez sim. Se bem que ela própria havia dito que não tinha mais nada a ver continuar aquele namoro à distância com ele e quando lhe perguntaram sobre seus sentimentos em relação a ele, não quis responder. De repente, não estivesse mais apaixonada por ele como antes e quem sabe não tinha outro cara na fita e ela não quisesse falar no assunto? Era o direito dela.

    Naíra pensou tanto e tanto que nem viu o sono chegar.

    No dia seguinte acordou cedo. Era sábado e o tempo estava bom. Ajudou a tia a fazer o café e o almoço e na arrumação da casa. É lógico que teve que contar o que acontecera na noite anterior para ela.

    - Ai, eu sabia! Eu não te falei que era um encontro, Naíra? E aí, vocês vão se ver de novo?

    - A gente combinou de se ver hoje na praia.

    - Ih, então é melhor eu não ir com você. Não quero empatar ninguém.

    - Ah, tia, que isso! Fala sério!

    - Tô falando. Pode deixar que fico em outra parte, bem longe de vocês, tá bom? Fico com as minhas amigas, fofocando e tá tudo ótimo! Agora, juízo, heim, garota!

    - Tá bom, tia. Pode deixar que juízo tenho de sobra.

    Sua tia era mesmo o máximo! Era a sua tia mais legal, mais pra cima e menos careta.

    Naíra estava feliz, gostando da idéia de reencontrar com ele e ficar de novo. Mas a idéia de que no fundo estava traindo Emilene não saía da sua cabeça.

    Após o almoço, foram para a praia e tia Verônica fez como dissera, foi para outro lado com as amigas, deixando-a sozinha.

    - Qualquer coisa me liga ou me manda um torpedo. Beijinhos... – disse ela para a sobrinha.

    - Já é, tia. – respondeu.

    Ao chegar, olhou para os lados a procura dele, mas não conseguiu avistá-lo.

    Então foi para a areia, estendeu a sua canga e se sentou. Ficou olhando para as ondas e para os poucos surfistas que se aventuravam no mar.

    - Oi.

    Naíra olhou para o lado e deu de cara com Rubens sentado, de óculos de sol, sem camisa e com um lindo sorriso nos lábios. Ele era um gato mesmo, pensou. Deu-lhe então um beijo e ficaram juntos ali. Depois resolveram dar uma volta pela praia. Tomaram água de coco e caminharam pelo calçadão da orla. Ficaram juntos a tarde toda e viram juntos o pôr do sol sentados na areia. Ficaram namorando, se curtindo e Naíra se esqueceu de tudo, dos problemas, das encanações, das dúvidas, enfim. Deixou tudo pra lá e curtiu aquele momento com ele.

    Também conversaram sobre várias coisas.

    Rubens havia se terminado o Ensino Médio no ano anterior e estava no primeiro período de Engenharia Civil numa universidade na cidade onde moravam.

    - E você, quer fazer o quê? – ele perguntou.

    - Ainda não sei direito. Tô meio indecisa entre Publicidade e Biologia. Nossa, nada ver né?

    - É verdade. Nada a ver! As duas são bem diferentes...

    Então, olhando em seus olhos e segurando em sua mão, lhe disse:

    - Eu quero continuar ficando com você depois que a gente voltar daqui da praia. E você?

    - Também. Eu... tô curtindo muito ficar com você, Rubens.

    Beijaram-se de novo.

    Foi então que Naíra tomou coragem e disse:

    - Posso te falar uma coisa?

    - Pode, claro.

    - Já que a gente vai continuar ficando, eu não quero que as minhas amigas saibam a princípio. É porque, você sabe... Você é o ex-namorado da Emilene e nós somos grandes amigas. Na verdade, nós cinco: eu, ela, a Tainá, a Cissa e a Yedda. E não sei como que elas vão reagir quando ficarem sabendo que a gente tá ficando.

    - Tá, tudo bem. Mas sinceramente acho uma besteira você se preocupar assim. A minha história com a Emilene acabou, não tem mais nada. E se tivesse, eu não estaria com você. Mesmo porque eu sei que você é muito amiga dela. Mas, Naíra, não vamos misturar as coisas, tá?

    Naíra só balançou a cabeça concordando.

    No dia seguinte não se viram, já que ele subiu a serra antes que ela. Porém, se falaram ao telefone.

    Porém, no dia seguinte, já na cidade, se viram rapidamente na saída do colégio. No entanto, não se beijaram, apenas se cumprimentaram com um oi como haviam combinado.

    Daquele dia em diante continuaram ficando e a cada dia ambos se envolviam mais um com o outro. O único medo de Naíra era que no fundo ele ainda fosse apaixonado por Emilene e ela só estivesse servindo de tentativa para esquecê-la. Por isso, se resguardava ao máximo, tentando não se envolver tanto assim com ele. E, além disso, ainda tinha aquela mesma sensação do início de que, de algum modo, estava traindo a amiga ao ficar com ele. Como queria que as coisas fossem diferentes. Será que nunca seria feliz no amor como as suas amigas eram? Será que sempre haveria um “porém” em sua vida? Por vários anos vivera curtindo um amor platônico por Otávio e comera o pão que o diabo amassou por causa dele. Estava mais do que na hora de ser feliz também!

    22h50 |
    Capítulo 36 - O Retorno de Emilene

     Os dias se passaram.

    E num dia que parecia como qualquer outro, tiveram uma grande surpresa: Emilene estava de volta, ainda que por pouco tempo.

    - Não acredito! Emilene! - exclamou Naíra assim que avistou de longe a amiga parada em frente ao portão do Colégio Atenas.

    Tainá e Cecília igualmente não acreditaram, afinal, fazia tempo que não falavam com a amiga. Aliás, nenhuma das quatro!

    O reencontro foi emocionante, afinal já havia se passado quase cinco meses desde que fora embora para São Paulo.

    - Eu estava morrendo de saudades de vocês! Vocês nem imaginam o quanto... - disse Emilene.

    - Pois nem parece, sabia? Você sumiu, Emi! Não liga mais, não manda e-mail... - cobrou Tainá.

    - É mesmo. O que houve pra você sumir do mapa assim? - disse Cecília.

    - Gente, tô trabalhando à beça. Graças a Deus! Fiquei um tempão parada, quase não trabalhava. Fazia vários castings, mas não davam em nada. Cheguei a pensar em largar tudo pra lá e voltar para casa. Só que quando eu ia desistir, as coisas começaram a acontecer. Agora, vocês não sabem da maior: estou de malas prontas para ir para o Japão! - disse Emilene.

    - Como é que é?! - perguntaram juntas quase que em coro.

    - Me explica isso direito, menina... - disse Naíra.

    - O pessoal da agência disse que algumas meninas vão pra lá pra começarem uma carreira internacional e me escolheram pra ir com mais três meninas. Eu aceitei. Até porque acho que vai ser interessante não só pra minha carreira, como também pra minha cultura. Só que antes de ir viajar, vim matar a saudades da minha mãe, da minha família e de vocês, é claro! - disse Emilene.

    - Nossa, Emi, que chique! - disse Tainá.

    - Mas, gente, como vocês estão heim? Eu tô louca para pôr o papo em dia. Vocês não? - disse Emilene.

    - É lógico que sim! - respondeu Yedda.

    Então saíram do portão do colégio e foram para uma lanchonete para botar as fofocas em dia.

    Emilene ficou surpresa com as notícias que soubera das amigas, mas a que mais a chocou foi a da gravidez de Yedda. E, como era de se esperar, deu aquele sermão para a amiga.

    Porém, antes que Emilene se empolgasse demais com uma daqueles sermões intermináveis, Cecília logo quis saber o motivo do término do namoro com Rubens. Aliás, não só ela como as suas amigas também. Porém, a princípio, Emilene relutou em dizer:

    - Ai, gente, eu não queria falar sobre isso...

    - Ah, Emi, fala sério, né! Poxa, você vai deixar a gente assim na maior curiosidade? Não é justo! - disse Cecília.

    - Ah, é mesmo! A Cissa tá certa. A gente tá aqui há um tempão roendo as unhas, loucas para saber o que deu em você para terminar tudo com ele e você deixa a gente assim, no vácuo? Isso não vale, Emi! - disse Yedda.

    - Poxa vida, ninguém entendeu o motivo de vocês dois terminarem assim de uma hora pra outra. Não estava tudo bem entre vocês? - disse Tainá.

    - Estava, Tainá. Mas... - disse Emilene. - Tudo bem, eu vou falar, mas não quero entrar muito em detalhes, ok?

    - Ok. Então fala logo, caramba! - disse Naíra ansiosa.

    - Terminei porque pra mim não tinha mais nada ver a gente continuar namorando assim à distância. Não achei nem justo pra ele nem pra mim, afinal, não seria fácil da gente se encontrar e a gente ficaria de certo modo preso um ao outro sem poder conhecer outras pessoas sabe? Até porque eu não gostaria nem um pouco de levar um chifre tal como não acho certo pôr em alguém também. Enfim, achei melhor tomar esta atitude. Pelo menos, o caminho fica livre para nós dois.

    - Nossa, Emi, que horrível! Pra mim você foi muito fria. - disse Cecília.

    - Não fui fria, Cissa, eu fui prática e justa. Pensa bem, namorar a distância não é nada fácil sabia? E, além do mais, eu sei que o Rubens gosta de sair, de ir pra balada e zoar com os amigos e ele estava ficando em casa direto, deixando de se divertir por minha causa. E mais: sem saber quando é que a gente se veria. Daí eu pensei bem e me questionei se valia mesmo a pena continuar com ele, se realmente eu estava disposta a levar adiante um relacionamento assim. E sinceramente, desde o início eu não acreditava que pudesse dar certo. - disse Emilene.

    - Mas e os seus sentimentos? Você não ama Rubens? Não consigo entender isso, Emi! Não me conformo! - disse Tainá.

    - Eu também não. Poxa, Emi, eu torcia tanto por vocês... - disse Naíra igualmente inconformada.

    - Eu sei. Mas, sei lá. As coisas ficaram bem diferentes depois que saí daqui da cidade. As coisas são bem diferentes lá em São Paulo. - disse Emilene.

    - Você conheceu outro cara, fala a verdade? - perguntou Cecília.

    - Não, gente, eu não conheci ninguém. Esse tempo todo fiquei focada no trabalho e só. E pretendo continuar assim por um bom tempo. Poxa, gente, também não quer dizer que nunca mais vai rolar nada entre mim e o Rubens. Foi o que falei com ele. Terminar o nosso namoro agora não significa que a nossa história acabou. Quem sabe um dia não rola uma volta? Mas no momento não dá. Bom, gente, agora vamos mudar de assunto, por favor? - disse Emilene.

    Suas amigas concordaram, já que viram que realmente ela não iria seguir com o assunto. Logo falaram sobre outras coisas, principalmente sobre os últimos acontecimentos.

    Emilene ainda ficou na cidade mais dois dias, o que não foi suficiente para matar toda a saudade que tinha da família e das amigas. Viu todo mundo, exceto Rubens. Não queria vê-lo para não dar esperanças a ele nem a si mesma.

    Sua família fez um churrasco em sua casa e convidaram suas amigas. Até mesmo Neto e Heitor foram acompanhando suas namoradas.

    No churrasco, Cecília ainda ficou balançada pela presença de Wendell. Entretanto, viu que estava acompanhado da namorada, que, aliás, não desgrudava dele.

    Rubens, como era de se esperar, soube da curta visita de Emilene à cidade. No entanto, não quis procurá-la. Entendeu com todas as letras que o fato dela não procurá-lo, significava que realmente não queria contato.

    No dia seguinte, mais uma vez foram se despedir da amiga na rodoviária. Desta vez, sem noção do quando iriam vê-la novamente. Logo, diferente da vez anterior, a despedida não teve gosto de até logo, mas sim de quase um adeus.

    12h37 |
    Capítulo 35 - Grávida?!!!

    - Grávida, Yedda? Tem certeza? - perguntou Heitor assim que Yedda lhe contou.

    - Fiz um exame de farmácia hoje e deu positivo.

    - Mas... Exame de farmácia? Bom, de repente não é tão confiável assim e se você fizer um exame de sangue? Talvez dê negativo...

    Heitor tentava descartar qualquer possibilidade além de tentar também disfarçar todo o pânico que sentia naquele momento. Não podia demonstrar, afinal isso só pioraria as coisas. De apavorada bastava Yedda.

    - Vamos fazer o seguinte. Amanhã de manhã, a gente mata a primeira aula e vai naquele laboratório perto da escola e você faz o exame. O que você acha? - disse Heitor.

    - Não é má idéia. Ai, Heitor, tomara que você esteja certo e que esse exame dê negativo! - disse Yedda abraçando o namorado.

    No dia seguinte fizeram como o combinado e o resultado saiu no mesmo dia à tarde. Ficaram fazendo hora na rua depois da aula e foram juntos ao laboratório buscar o resultado que só confirmou o exame de farmácia.

    Yedda estava mesmo grávida e não restavam mais dúvidas quanto a isso. Mais uma vez desabou a chorar sem parar. No entanto, Heitor se manter calmo apesar das circunstâncias, tentou acalmá-la.

    - Calma, Yedda, calma.

    - Como assim "calma"? Não dá pra ficar calma, Heitor! Eu tô grávida! A gente vai ter um bebê, meu pai vai me matar... Ou será que você não se deu conta disso ainda?

    - Eu me dei conta sim. Mas ficar desesperado não vai adiantar nada. A gente já fez a besteira, a gente deu mole mesmo, não se cuidou e olha aqui o resultado. - disse Heitor mostrando o resultado do exame. - Chorar não adianta nada. E olha só: a gente tá junto nessa. Você não fez esse filho sozinha e eu tô contigo, não se esqueça disso.

    - Mas o que a gente vai fazer, Heitor? Eu tô com medo.

    - Eu também tô. A gente vai contar para os nossos pais.

    - Contar? Não, Heitor, a gente não pode! - disse Yedda se apavorando outra vez.

    - A gente tem que contar sim, Yedda. A gente conta primeiro para os meus pais e depois para os seus. Tenho certeza de que vai ser bem fácil contar para os meus e que eles vão nos ajudar. De repente a minha mãe vai até com a gente para contar para o teu pai e pra tua mãe. Minha mãe é gente boa, fica tranqüila.

    - Então vamos contar hoje mesmo. A gente vai para a sua casa e conta tudo pra ela.

    Diferente de como pensaram, os pais de Heitor não reagiram nada bem à notícia da gravidez de Yedda. Dona Cássia, sua mãe, falou sem parar do quanto foram irresponsáveis em não se prevenirem. Seu Domingos, então, falou ainda mais.

    - Você não tem mesmo nenhum juízo nessa cabeça, Heitor. Aonde já se viu? Engravidar a menina? Aonde você tava com a cabeça, garoto? Nunca ouviu falar em camisinha não, moleque?

    Heitor sequer levantava a cabeça. Estava afundado no sofá ao lado de Yedda, apertando sua mão toda vez que seu pai o chamava de moleque ou de garoto. Estava envergonhado. Completamente. Afinal, não se sentia mais como tal. Sentia-se um homem. Quer dizer, sentia-se até o momento em que seu pai lhe dera um ultimato.

    - Você vai ter que assumir a besteira que você fez. Já sabe né? Não vai me fugir da responsabilidade que você arrumou, heim!

    - Como assim, Domingos? Você não está dizendo que eles vão ter que se casar né? - perguntou sua mãe.

    - É claro, Cássia!

    - Domingos, pelo amor de Deus, eles são duas crianças! Casar nessa idade? O Heitor só tem dezoito anos e a Yedda é uma menina ainda. Nem terminaram os estudos! - argumentou Cássia.

    Tanto Heitor quanto Yedda arregalaram os olhos de surpresa e de pânico. Casar? Ouviram bem mesmo?

    - Cássia, pensa um pouco. E se fosse com a nossa filha? E se fosse com a Eduarda? Eu não ia admitir que ela aparecesse aqui grávida sem que o pai assumisse.

    - Mas o Heitor vai assumir. Não vai? - perguntou sua mãe encarando-o com o olhar quase fuzilando-o.

    - Claro. - respondeu balançando a cabeça afirmativamente.

    - É lógico que você vai assumir! Ai de você se não! Te parto ao meio, garoto! - disse seu pai andando de um lado para o outro muito nervoso.

    Dona Cássia então disparou:

    - Meu Deus do céu! Meu filho, o que você foi arrumar?! Aliás, o que vocês arrumaram né? E agora, como é que vai ser? Seus pais já sabem, Yedda?

    - Não. - respondeu Yedda abaixando a cabeça. - Eles vão me matar...

    Antes que dona Cássia fizesse qualquer comentário, seu Domingos disse decidido:

     - Você vai ter que trabalhar, Heitor. Acabou a vida mansa. Foi homem pra fazer um filho, vai ter que ser homem também pra sustentar. Aonde já se viu... Vai trabalhar comigo lá numa das sapatarias. E nem adianta fazer corpo mole...

    Heitor engolia cada palavra a seco. Estava em pânico e também morrendo de raiva. Sua vida agora estava sendo decidida pelos seus pais. Aliás, não só a sua vida, como a de Yedda e todo o rumo da situação em si.

    De imediato seus pais decidiram ir com eles à casa de Yedda contar para seus pais.

    Ao saírem em direção ao carro, Yedda teve vontade de sair correndo fugindo tudo e de todos. Parecia que estava sendo conduzida ao fuzilamento. Apertou forte a mão de Heitor que nada disse.

    Assim que chegaram e seu Domingos estacionou o carro, Yedda pôde avistar o carro de seu pai dentro da garagem. Ele já havia chegado do escritório de contabilidade do qual era proprietário. Sentiu então seu estômago congelar de medo. As luzes acesas da casa demonstravam que todos estavam lá.

    Tocaram a campainha e que atendeu foi Marlom que fez uma cara quando viu Yedda acompanhada daquelas pessoas e de mãos dadas com Heitor.

    Entraram. Era hora do jantar. Era, até porque depois ninguém mais teve apetite para nada.

    Seu Raul quando viu todos aqueles desconhecidos exceto sua filha na sala de estar de casa, nada entendera e foi logo perguntando:

    - O que foi que aconteceu heim? Quem são estas pessoas, Yedda?

    Todos os olhares se voltaram para Yedda, que sentia suas pernas tremerem feito duas varas diante daquela pequena platéia a seu redor.

    - Pai, é melhor o senhor se sentar. Mãe, a senhora também.

    Seu Raul então a olhou com um olhar fuzilador. Pressentiu o óbvio.

    - O que foi que você fez? - perguntou ele se sentando na sua poltrona preferida.

    - Eu tô... - Yedda hesitou.

    Heitor, então, impulsivo como era, resolveu falar tudo de uma só vez.

    - Bom, seu Raul, meu nome é Heitor, sou namorado da sua filha e ela tá grávida de mim. Pode ficar tranqüilo que vou assumir tudo, não vou fugir.

    Seu Raul assim como dona Gladys e os gêmeos ficaram pasmos e um silêncio acometeu a todos. Um silêncio, aliás, que só fez tanto Yedda como Heitor tremerem ainda mais. Afinal o que poderia vir dali por diante? Que reação eles teriam agora?

    A reação de dona Gladys logo veio em forma de choro. Começara a chorar copiosamente sendo amparada por Ramon.

    - Mãe... me desculpa... - disse Yedda se colocando de joelhos diante do colo da mãe alisando seu rosto como se implorasse seu perdão.

    Porém, antes que ela lhe dissesse qualquer coisa, seu pai levantou decidido e disse:

    - Junta suas coisas e some daqui.

    - Pai... - disse Yedda olhando-o surpresa.

    - Seu Raul, por favor, vamos conversar. Sou o pai do Heitor, viemos com eles exatamente para conversarmos sobre o que fazer a respeito deste problema que meu filho e sua filha arrumaram. - disse seu Domingos.

    - Filha? Eu não tenho mais filha. Você me decepcionou, Yedda. Traiu a minha confiança. - disse seu Raul virando as costas para sair da sala.

    - Seu Raul, por favor. Ela sabe que fez uma besteira, mas essa atitude do senhor está sendo exagerada... - disse dona Cássia.

    - Exagerada? - disse seu Raul levantando a voz a interrompendo. - A senhora não venha me dizer um desaforo desses na minha casa. Aqui mando eu. E a minha decisão é essa. Sou eu que dito as regras na minha casa. Debaixo do meu teto tem que me obedecer sim, tem que viver do meu jeito. E essa menina aí traiu a minha confiança.

    - Mãe, faz alguma coisa! Não deixa o meu pai me expulsar de casa! - disse Yedda chorando.

    - Você traiu mesmo a nossa confiança, Yedda. Filha, por que você fez isso? - disse dona Gladys enquanto bebia o copo d'água que Ramon havia lhe trazido.

    - Anda. Junta suas coisas agora se não quiser sair com a roupa do corpo. - disse seu Raul saindo de vez da sala.

    Os pais de Heitor assim como ele ficaram boquiabertos com aquela reação da família de Yedda.

    Ramon fitara a irmã com um olhar reprovador, quase que de raiva. Estava amparando a mãe, que tinha hipertensão, tentando acalmá-la. Se acontecesse qualquer coisa com ela, seria culpa da irmã, pensava.

    Marlom, por sua vez, ficara sem ação. Estava igualmente preocupado com a mãe tal qual o irmão, mas também estava com pena da irmã. Seu pai havia pegado pesado, exagerado como disseram os pais de Heitor.

    - Yedda, querida, vamos ao seu quarto pegar as suas coisas. - disse dona Cássia pasma com tudo aquilo querendo sair dali o mais rápido possível.

    Yedda estava imóvel, paralisada com o choque que acabara de sofrer. Olhou mais uma vez para a mãe esperando que ela interviesse a seu favor, pedindo para o marido voltar atrás na decisão, mas ela só chorava.

    - Anda, Yedda, vai logo. - disse Ramon. - Faz o que o pai mandou. E olha só: se acontecer alguma coisa com eles, a culpa é sua.a seu favor, pedindo para o marido voltar atrr. mais rsas. a reaçe o que fazer a respeito desteproblemana plato perguntando:

     

    Diante disso e auxiliada pela mãe de Heitor e por ele próprio, foi a seu quarto juntar seus pertences para ir embora dali. Logo, Marlom entrou no quarto para ajudar também e disse baixinho:

    - Yedda, perdoa o pai. Ele tá nervoso, você sabe. A mãe também. Depois tudo isso passa.

    Mal escutara o que o irmão disse. Chorava tanto num misto de raiva, medo, enfim. E rapidamente juntou suas coisas na mochila e numa bolsa de viagem que seu irmão lhe trouxera. Logo saiu de casa acompanhada do namorado e dona Cássia.

    Entraram no carro onde seu Domingos os esperava, e da janela, Yedda olhou para sua casa como se fosse a última vez. Heitor então a abraçou. Um abraço terno, protetor e silencioso. Foram embora para a casa dele onde de agora em diante também seria a sua.

    Os pais de Heitor estavam pasmos e boquiabertos com tudo que acabaram de presenciar. Foram em silêncio até a metade do caminho.

    - E eu que pensava que era bravo... - soltou seu Domingos enquanto dirigia.

    - Adalberto, por favor... - disse dona Cássia.

    - Cássia, por acaso eu tô falando alguma bobagem?

    - E você ainda pergunta? Não vê que a menina tá assustada ainda? Pelo amor de Deus, né...

    Seu Domingos então se calou. Realmente não havia o menor clima para conversas naquele momento.

    Assim que chegaram, dona Cássia mesmo tratou de arrumar o quarto de Heitor para que Yedda pudesse dormir nele também.

    Além de Eduarda e Heitor, tinham mais dois filhos, Ulisses e Abelardo, que logo souberam do ocorrido.

    - Caramba, heim, Heitor! Que bobagem que você fez, heim, cara! - disse Ulisses.

    - Cara, você deu muito mole! Por que não usou camisinha? - disse Abelardo.

    - Ai, gente, deixem o Heitor em paz. O coitado já deve de estar com a cabeça cheia e vocês ainda vêm com mais sermão? - disse Eduarda defendendo o irmão.

    Realmente a cabeça de Heitor estava cheia. Tão cheia que não quis sequer jantar ou fazer um lanche como propusera sua mãe. Logo tomou um banho e foi para o quarto, onde Yedda estava.

    Encolhida no colchonete ao lado da cama, enrolado no edredom, chorava baixinho.

    - Calma. A gente vai ficar bem. Vai dar tudo certo, Yedda. Você vai ver. - disse passando a mãos nos seus cabelos.

    Yedda nada respondeu. Não parava de pensar em tudo o que acontecera. Ser expulsa de casa pelo próprio pai? Não podia acreditar. Queria que tudo não passasse de um pesadelo do qual acordasse logo.

    No dia seguinte foi para o colégio com Heitor e suas amigas logo estranharam o fato de ter vindo da casa dele. Mas quando souberam de tudo, ficaram boquiabertas. Os amigos dele também quando souberam tiveram a mesma reação.

    - Caramba, Heitor, que barra heim! - disse Otávio. - E agora, cara, o que você vai fazer?

    - Assumir, né. O que você acha? - disse Heitor visivelmente abatido. - É como disse meu pai: fui homem pra fazer o filho, tenho que ser homem pra assumir também.

    Um grupo de meninas de outra turma passou e ouviu a conversa dos dois rapazes. Logo trataram de fazer a notícia correr pelo colégio chegando aos ouvidos dos diretores e da orientação.

    Assim que os encontrou num dos corredores do Atenas, dona Adelaide os chamou para uma conversa.

    - É verdade o que estão comentando por aí, aqui no colégio, gente? Você está mesmo grávida, Yedda?

    - Sim, senhora, dona Adelaide. - respondeu Yedda abaixando a cabeça envergonhada.

    - Ai, meu Deus... Nossa, que situação heim? Mas... Imagino que seus pais já saibam, não é? - disse dona Adelaide.

    - Já sim. A Yedda tá na minha casa. Os pais dela brigaram com ela. - respondeu Heitor.

    - Como assim? Te puseram pra fora de casa, Yedda? Meu Deus, que absurdo! Gente, isso é coisa do século passado. - disse dona Adelaide boba com o que acabara de ouvir.

    - Eu sei. Mas meu pai é assim mesmo. Totalmente antiquado. - disse Yedda ainda envergonhada e pouco à vontade. - Por favor, dona Adelaide, não comenta nada sobre isso não. A gente já tá super chateado por causa disso tudo e não tá sendo nada fácil.

    - Eu imagino. E o que você vão fazer daqui por diante. Não estão pensando em tirar o bebê, estão? - disse dona Adelaide.

    - Não, claro que não. - respondeu Yedda prontamente. - Não é, Heitor?

    - Não, com certeza. A gente vai assumir o bebê. Só isso. - respondeu.

    - Que bom. Porque vocês com certeza sabem que aborto é crime e, além disso, é muito perigoso. Ainda bem que estão conscientes do que fizeram e que vão assumir. Bom, o que precisarem, podem contar comigo. Se precisarem conversar com alguém, estou às ordens, ok?

    Realmente precisariam dali por diante. Não seria nada fácil para nenhum dos dois.

    Os dias se passaram e nada dos pais de Yedda a procurarem ou telefonarem. Sequer atendiam seus telefonemas quando não agüentava de saudades ou insistia em lhes pedir perdão. Por fim, desistiu de lhes telefonar.

    Por mais que fosse bem tratada na casa de Heitor, ainda se sentia uma intrusa, ainda mais que o clima ainda não era dos mais confortáveis. A gravidez ainda estava sendo assimilada e digerida por toda a família, que tentava se adaptar a toda a mudança que ela trazia consigo.

    Yedda continuou dormindo no quarto de Heitor, que a deixara dormir na cama enquanto dormia no colchonete. Logo, para terminar com desconforto, seus pais trataram de retirar sua cama de solteiro e substituí-la por uma cama de casal.

    Dona Cássia também tratou de levá-la ao ginecologista para iniciar o pré-natal.

    Tudo aquilo assustava Yedda, que ainda não conseguia se imaginar tendo um filho. Mas teria que se acostumar com a idéia cedo ou tarde, pois o tempo passava rápido demais.

    18h35 |
    Capítulo 34 – Tarde demais?

    No dia seguinte, terça-feira de carnaval, Cecília foi ao apartamento de Naíra. Precisava mesmo conversar sobre o que acontecera na noite anterior. Aliás, a amiga estava super curiosa.

    - Nossa, Cissa, você tá com uma cara... – disse assim que a recebeu na sala.

     - Quando eu te contar, você vai entender...

    - Então vamos lá para o meu quarto pra você me contar tudo tintin por tintin, viu?

    Lá, Cecília contou-lhe o motivo da sua cara de frustração.

     - Ai, Naíra... O Gaspar me deu um fora, você acredita?

    - Um fora? Como assim?

    - Ah, Naíra, sei lá! Acho que eu assustei ele, não sei. Ou cheguei tarde demais... Ele me disse que tava meio confuso, sabe.

    - Como assim “meio confuso”? Ele não era amarradão em você nesse tempo todo?

    - Pois é. Bom, vou te contar em detalhes. Foi o seguinte: a gente dançou junto e depois fomos para um lugarzinho mais reservado. Isso porque eu tomei a iniciativa né. Pois é, então a gente conversou, conversou, conversou... Parecia que só ia rolar papo, daí eu tomei uma atitude, né. Agarrei ele e dei o maior beijo.

    - Cissa, você ficou maluca?

    - Eu também acho. Ah, Naíra, ele não fazia nada, não tomava nenhuma atitude! Então eu tive que apelar, né! Só que mesmo assim ele continuou daquele jeito paradão dele. Então pensei: “Ou ele tá com medo de mim, ou não gosta de mim ou é um boiola mesmo!”.

    Naíra caiu na gargalhada e Cecília continuou:

    - Ai, amiga! Não é pra rir não, é sério, poxa! Daí eu perguntei a ele por que é que estava daquele jeito, se não havia gostado do meu beijo. Então ele me olhou sério e disse que não esperava por nada daquilo, que estava confuso. Disse que não queria ficar comigo naquelas circunstâncias, pois sabia muito bem que eu só estava querendo ficar com ele porque sabia que ele havia ficado com outras meninas e que só assim eu havia me dado conta da existência dele. Senão, eu continuaria na mesma, ignorando a presença dele até hoje. Olha só. - Bom, ele não disse nenhuma mentira, né, Cissa. Muito pelo contrário...

    - Ai, Naíra! Poxa, até parecia que ele sabia de tudo, que tava lendo meu pensamento. Cruzes! E disse que se fosse para eu ficar com ele, que era para ficar direito, gostando dele de verdade. Disse que sempre foi apaixonado por mim e que sofreu a beça quando eu preferi ficar com o irmão dele e não com ele. E que não queria mais sofrer por mim de novo, ainda mais sabendo que eu só estaria com ele para passar o tempo.

    - Cecília... – disse Naíra boba com o que acabava de ouvir.

    - O que, menina? Que cara é essa?

    - Parece que eu e ele combinamos tudo, até as palavras...

    - Como assim?

    - Ontem o Otávio tentou me beijar e ficar comigo. Só que dessa vez eu disse que não iria ficar com ele e falei tudo o que eu sentia. Deixei bem claro que não queria ficar com ele só para passar o tempo e com isso sofrer tudo de novo. Tô cansada disso, sabia? E é por isso que entendo porque o Gaspar te deu o toco. Ele não tá errado não, Cissa. Fala a verdade: você não gosta dele de verdade, gosta? Você tá é carente e com uma bela dor de cotovelo por saber que ele não tá mais totalmente a sua disposição como você pensava e que tá ficando com outras meninas. Ele não é idiota assim como eu não sou. Não é nada legal ficar com uma pessoa gostando dela de verdade sabendo que a qualquer momento tudo pode acabar sem mais nem menos. Ficar com alguém que não gosta de verdade da gente, que só tá com a gente por estar. Você sabe disso melhor que ninguém. O Olavinho te usou, fez de você um passatempo. E você acha certo fazer o mesmo com o Gaspar?

    Cecília ficou em silêncio pensativa. E depois suspirando disse:

    - Você tá é certa, Naíra. Eu não gosto dele de verdade e não é justo fazê-lo sofrer só por causa de um capricho meu.

    Nesse instante a campainha tocou.

    Era Yedda, muito afoita, toda apavorada com um saquinho de farmácia numa das mãos.

    - Preciso da ajuda de vocês, meninas.

    - O que foi que aconteceu? – perguntou Cecília.

    - Isso dentro desse saco não é o que estou pensando, é? – perguntou Naíra.

    - É um teste de gravidez. – respondeu Yedda pálida de medo e disparando a falar sem parar. – Comprei e vim direto pra cá. Não posso fazer na minha casa. Se a minha mãe me pega com isso, ela me mata. Acho que eu tô grávida. Minha menstruação tá atrasadérrima! Tô morrendo de medo, meninas... Não sei o que fazer. E se eu estiver mesmo grávida? O que é que eu faço, meu Deus? Meu pais vai me matar!!! E o Heitor? Ele... ele vai ficar desesperado!

    22h26 |

     - Calma, Yedda! Calma. Vamos ler as instruções desse exame, você faz e a gente vê no que vai dar. Se der positivo, aí você chora, se descabela, enfim... E se não der, a gente faz uma super festa e você e o Heitor passam a tomar mais cuidado, ok? - disse Cecília pegando a caixa do exame e abrindo.

    Leram juntas as instruções várias vezes. Não queriam ter uma sombra de dúvidas sequer. Então Yedda foi para o banheiro onde fez tudo conforme a bula do produto: urinou num potinho e pôs a tirinha do exame dentro. Se aparecesse um tracinho, significava negativo e, "Viva!", nada de gravidez. Mas se aparecessem dois tracinhos, poderia começar a se descabelar como disse Cecília. Nunca cinco minutos pareceram tanto tempo em toda sua vida!...

    No banheiro, as três amigas olhavam fixamente para a tirinha e após os cinco minutos, lá estava o resultado: dois tracinhos que surgiram como mágica. Positivo.

    Yedda desabou a chorar sem parar.

    - Ai, meu Deus! Ai, meu Deus do céu! E agora? Ai, meu Deus... Eu tô ferrada!... Eu tô grávida. Eu tô grávida... E agora?...

    Suas duas amigas se entreolharam. Também estavam assustadas com o resultado. Realmente: e agora?

    A amiga realmente estava numa situação muito complicada. Grávida aos dezessete anos. Mas não era só a gravidez que a assustava. Mais que o fato de estar grávida, era a reação que seu pai teria quando descobrisse, pois mais dia, menos dia a verdade viria à tona.

    Cecília então foi até a cozinha e buscou um copo de água com açúcar para acalmá-la.

    - E agora, Yedda? O que você vai fazer? - perguntou Naíra.

    - Não sei... Eu tô com muito medo. - disse Yedda assim que bebeu a água.

    - Bom, a primeira coisa a fazer é contar para o Heitor né. Afinal, ele é o pai e tem que saber. - disse Cecília.

    - Ele vai ficar desesperado. - disse Yedda.

    - Ai, Yedda, eu tô me segurando, mas não consigo. Como é que vocês foram dar um mole desses, garota? Não é possível! - disse Cecília inconformada com o resultado.

    - Ai, Cecília, cala a boca! Essa é a pior hora pra você dar uma bronca na Yedda, né! - disse Naíra.

    - Aconteceu... Poxa, eu não pensei que pudesse acontecer logo com a gente né... - disse Yedda ameaçando a chorar novamente.

    - Ah tá. Se a gente não se cuida, essas coisas acontecem sim. Ou vocês nunca ouviram falar em camisinha e anticoncepcional? - disse Cecília. - Poxa, Yedda, a gente cansou de ter aulas sobre isso no colégio. No final do ano passado a gente até ganhou preservativos na Semana do Combate a AIDS. Todo mundo ganhou. E é tão barato. Por favor, né...

    - Chega, Cissa! Pára de falar, pelo amor de Deus! - disse Yedda se levantando e encarando a amiga. - Será que você não vê que eu tô desesperada, com medo, assustada? Eu tô grávida, vou ter um filho e não sei o que faço.

    - Gente, vamos acalmar os ânimos, ok? - disse Naíra entrando no meio. - Discutir não vai levar a nada, só vai piorar tudo. Acho que o melhor a fazer agora é ligar para o Heitor e contar para ele. E pensar em como contar para os seus pais, Yedda.

    - Não, eu não posso contar pra eles. Eles não podem saber. - disse Yedda apavorada.

    - Mas, Yedda, mais dia, menos dia eles vão descobrir. Sua barriga vai crescer, ou você se esqueceu deste pequeno detalhe? - disse Cecília.

    Yedda nada respondeu. Apenas olhou para as amigas como se suplicasse sua ajuda.

    - Eles vão ter que saber. - disse Naíra.

    - Vou ligar para o Heitor. - disse tirando o celular do bolso.

    - Não, Yedda. Não fala por telefone. É melhor você falar com ele pessoalmente. - disse Naíra.

    - A Naíra tá certa, Yedda. Marca um encontro com ele e daí vocês conversam e decidem juntos o que fazer. - disse Cecília.

    Yedda então concordou.

    Naquela mesma tarde se encontrou com ele e lhe contou tudo.

    22h20 |
    Capítulo 33 - Dor de cotovelo, reviravoltas e surpresas... (parte 2)

     Os dias se passaram e logo chegou o carnaval.

    Apesar de ser um costume viajar nessa época, ninguém havia viajado, então Neto convidou os amigos e a namorada para tomarem banho de piscina em sua casa. Logo, Naíra e Cecília também foram.

    Assim que viu Gaspar chegar, Cecília não perdeu tempo. Resolveu partir para o ataque! Ainda mais que sabia que o lance com Leila não passara de uma ficada e só.

    Havia levado dois biquínis na mochila já que sempre ficava em dúvida de qual vestir. Então optou pelo que a deixava ainda mais linda e valorizava mais seu corpo. Tinha que saber quais armas usar e tinha certeza de que Gaspar não resistiria. Entrou no banheiro que havia perto da piscina e trocou rapidamente de roupa, soltando os cabelos longos e saiu. Passou na frente de Gaspar quase que desfilando numa passarela e deitou numa espreguiçadeira bem no ângulo de visão do rapaz. E é lógico que o efeito foi imediato e ela sabia bem disso. Podia notar que de longe ele não tirava os olhos dela.

    Naíra também havia percebido a estratégia da amiga e se segurava para não cair na risada, afinal não queria zombar nem atrapalhar os planos dela. Na verdade, bem que queria ser como ela. Cecília, além de bonita, sabia o que queria e corria atrás disso. Era corajosa e nem um pouco acomodada.

    Deu um mergulho então na água e, sem querer, acabou respingando na amiga.

    - Desculpa... - pediu sem graça assim que chegou à borda próxima a Cecília, que a olhou com uma cara...

    Pôs-se então a nadar pra lá e pra cá. Estava uma linda tarde de sol e a água estava ótima!

    Logo Tainá entrou também.

    - Olá! Ué, a Yedda não vem não? - perguntou Naíra para a amiga.

    - Sei lá! Ela tá lá no banheiro advinha fazendo o quê? - disse Tainá.

    - Ai não, Tainá... Será que ela tá grávida?

    - Nem fala isso! Nem quero pensar... Mas ela e o Heitor estão com uma cara...

    Logo Naíra viu que o que Tainá dizia era verdade.

    Heitor chegou à piscina com Otávio com uma cara de preocupação...

    Não demorou muito Yedda também chegou com a mesma cara, mas tentando disfarçar. Sentou-se na borda longe do namorado, que logo se sentou ao seu lado e passaram a conversar baixinho ao pé do ouvido.

    Naíra e Tainá então se apoiaram na outra borda e ficaram batendo os pés por debaixo d'água e continuaram a bater papo.

    De repente Naíra deu um berro soltando-se e quase se afogou de susto. Alguém havia a segurado seu pé e puxado para o fundo.

    - Yedda, pára de palhaçada! Larga o meu pé!!! - gritava segurando a borda da piscina com uma das mãos tentando não afundar.

    - Te assustei? - perguntou idiotamente Otávio rindo sabendo do óbvio.

    Naíra ficou boba. Então era ele?

    - Não, imagina... - respondeu ironicamente.

    Já fazia algum tempo que não conversavam. Aliás, desde que levara um fora seu e parara de conversar com ele.

    Neto iria fazer o mesmo com Tainá, mas, esperta, o surpreendeu antes que fosse surpreendida por ele.

    Gaspar logo entrou na água também e não conseguia disfarçar o interesse por Cecília.

    - Vai lá, brother... Aproveita que a Cissa, tá no papo. - aconselhou Otávio.

    - Tá mesmo? Será? - disse Gaspar inseguro.

    - E você ainda pergunta, ô manézão? Tá na cara! Vai lá, meu irmão! - disse Neto quase que empurrando o amigo para o lado fundo da piscina.

    Gaspar, apesar de todas as mudanças de que o pessoal comentava, ainda continuava o mesmo tímido e inseguro de sempre. Por mais que Cecília desse sinais de que estava mesmo interessada, ainda assim ele tinha medo de que tudo não passasse de impressão sua. Então preferiu continuar na sua.

    Cecília então decidiu entrar na água. Já estava cansada de torrar no sol!

    Neto e Otávio, que adoravam uma brincadeira sem graça, distribuíam "caldos", quase afogando principalmente a Tainá, que era a vítima preferida dos dois. Naíra também, mas logo ficou esperta e, como ainda tinha que se vingar de Otávio do susto que lhe dera, não perdeu tempo. Na primeira oportunidade, chegou por trás e lhe deu aquele caldo que serviu de vingança por ela e por todos que levaram um dele. O riso foi geral, principalmente quando Otávio não conseguia mais parar de tossir de tanta água que bebera...

    Só Yedda e Heitor que não se divertiam. Estavam mesmo preocupados e não demorou muito, entraram na casa e surpreenderam a todos quando apareceram de roupas trocadas se despedindo.

    - Pô, Heitor, fala sério! Você já vai embora, brother? Pô, qual é? Vocês nem entraram na água... - disse Neto saindo da água e indo atrás deles.

    Porém, por mais que insistisse, não os convenceu a ficar. Yedda, aliás, estava tão estranha, que sequer se despediu das amigas, e isso só aumentou as suas suspeitas.

    Neto então voltou frustrado, mas logo a frustração passou e voltou a se divertir com os amigos na piscina. Depois deixou de lado as brincadeiras e se achegou a Tainá para namorar. Ela, por sua vez, sabia das intenções do namorado, e não sabia aonde se enfiar de tanta vergonha. Os dois ainda não haviam transado, por mais que Neto insistisse. E não tardou para que, discretamente, a retirasse dali.

    Permaneceram então apenas Gaspar, Cecília, Naíra e Otávio na piscina conversando. Vários eram os assuntos e em todo tempo Cecília se insinuava para Gaspar, que continuava na sua. De tanto ver o amigo na defesa, Otávio o chamou para fora da piscina com a desculpa de ir até a cozinha buscar bebida, e o pôs contra a parede:

    - O que você tem na cabeça, heim o mané? Por acaso você é bicha ou o quê?

    - Por que você tá falando assim comigo, heim, cara? - perguntou Gaspar assustado.

    - Você ainda pergunta, seu infeliz?! Tô falando da Cissa, caramba! Não tá vendo que ela tá te dando o maior mole, que falta pouco se jogar pra cima de você?

    - É, é eu percebi... Mas... o que eu faço?... - disse Gaspar com o seu jeito tímido e acuado de ser.

    - O que você faz?! Não acredito que tá perguntando isso, Gaspar. Fala sério! Uma gata como a Cissa te dando mole e você sem saber o que fazer? Ah, pelo amor de Deus! Eu, no teu lugar, caia matando, brother... Dava aquele trato na gata.

    - Mas...

    - Mas o quê, Gaspar? Se liga, meu irmão! Tu não era afinzão dela? Tá aí a tua chance de ficar com ela!

    - Eu sei... É que... Eu tô... Meio confuso, entendeu? Não esperava que um dia ela fosse se interessar por mim, Otávio.

    - Mas, cara, aconteceu. A Cissa tá na tua mão, meu brother. Tá ali, só esperando que você chegue. Ou você tá esperando que ela te agarre?

    Otávio encarou o amigo esperando uma reação, mas ele era mesmo tímido. Porém, confrontado daquela forma, tinha que tomar uma decisão a respeito de Cecília, até porque ainda era apaixonado por ela.

    - Eu vou tomar uma atitude! - exclamou decidido dizendo mais para si próprio do que para o amigo.

    - É assim que se fala! É isso aí!

    Enquanto eles estavam dentro da casa, Cecília e Naíra conversavam sentadas na borda da piscina.

    - Ai, Naíra, acho que vou deixar o Gaspar pra lá, sabia?

    - Ué, por quê? Você não tava decidida a reconquistar o garoto?

    - Tava, mas... Poxa, Naíra, você tá vendo que falta pouco eu me jogar pra cima dele e ele... nada! Nem aí pra mim! Ou ele tá querendo se fazer de difícil ou não quer mais nada mesmo comigo.

    - É... É mesmo chato isso. Nossa, o Gaspar é mesmo um esquisito, heim!

    - Vamos falar mais baixo que eles vêm vindo aí...

    Cecília olhou para Gaspar, que ainda permanecia um tanto constrangido. Com isso, desistiu dele de vez. Concluiu que era mesmo melhor deixar pra lá aquela história de ficar com ele.

    22h26 |

     No quarto de Neto, mais uma vez Tainá havia recuado em transar pela primeira vez com ele e, com isso, havia um clima estranho no ar. Um clima de desconforto e frustração.

    - Não fica assim, Neto... - disse tentando melhorar as coisas.

    - Você quer que eu fique como, heim? Poxa, Tainá... Você sabe, caramba, eu tô maior seca! Você sabe que eu sou louco por você e que não tem nada a ver a gente ir adiante... Do que você tem medo, heim?

    - Ah, Neto... Sei lá... Não é medo... é...

    - É o quê, heim?

    - É que não me sinto pronta, poxa. Sei lá, não me sinto segura pra isso... Por favor, não me pressiona, vai... Me entenda, por favor...

    Neto então olhou para ela que quase chorava de tão desconfortável que se sentia diante daquela situação. Não queria forçar nada, muito menos magoá-la. Porém, já fazia tempo que vinha se segurando... Então disse:

    - Tudo bem, Tainá. Não vou mais forçar a barra, tá? Vou tentar segurar a minha onda. Tentar, ouviu bem?

    - Ouvi. Eu também quero, mas... Ainda não é a hora... Você entende?

    - Tá... - respondeu balançando a cabeça e num tom um tanto seco, disse levantando-se. - Vamos descer? A galera deve de estar esperando a gente.

    - Tá.

    Então desceram para a piscina. Tainá, logicamente, super constrangida só de pensar no que seus amigos estavam pensando a respeito do que acontecera no quarto de Neto enquanto estiveram lá.

    - E aí? - perguntou Naíra a queima roupa assim que a amiga chegou.

    - E aí? E aí que não aconteceu nada... - respondeu Tainá muito sem graça.

    - Não acredito! Vocês ficaram lá em cima um tempão e não rolou nada?! - disse Cecília inconformada. - Não acredito.

    - Nem eu. - disse Naíra.

    - Nem eu. - concordou Tainá. - Mas é como vocês sabem, né? Eu...

    - Já sei: "não me sinto pronta ainda"... Certo? - disse Cecília.

    - É. - disse Tainá ainda sem graça.

    - Tudo bem, amiga. Você tá certa. Se não se sente pronta, é melhor mesmo esperar a hora certa. O cara certo você já tem. - disse Cecília.

    - É verdade. - concordou Naíra.

    De longe, os garotos falavam do mesmo assunto, só que sem a compreensão que as meninas compartilhavam entre si. Otávio, então, era o que botava mais pilha.

     Vendo tudo isto, Tainá sentiu-se uma boba, uma criançona, uma infantil. Tinha a sorte de namorar um cara como Neto e ainda assim dava um mole desses? Não conseguia se conformar por ser tão insegura... Outra garota em seu lugar já teria transado há muito tempo. Teve medo. Até agora ele estava sendo compreensivo, mas um dia, talvez, essa compreensão toda poderia se esgotar. Neto era um rapaz experiente e como ele mesmo dissera, estava "na maior seca". Então logo poderia acabar com o namoro e partir para outra, pensava ela. E se fizesse isso mesmo? E se por causa do seu jogo duro, ele terminasse tudo e partisse para outra? Só de pensar nisso, seu coração apertou.

     Vendo o semblante tristinho da amiga, Naíra perguntou:

    - O que foi, Tainá? Que cara é essa?

    - Nada... Tô só pensando.

    - Pensando no quê? Você tá com uma cara...

    - Em nada. Só bobagens...

    Sentadas a beira da piscina as duas amigas viram um clima de desânimo baixar sobre elas. Aliás, sobre a Cecília também, que tinha se dado por vencida.

    - Gente, acho que vou embora... Já deu no que tinha que dar essa "tarde na piscina". - disse.

    - Ai, Cissa, sinceramente... Concordo com você. Também vou me mandar. - concordou Naíra.

    - E eu também. - disse Tainá.

    - Ué, você não vai ficar com o Neto, Tainá? - perguntou Cecília.

    - Ficar aqui? Fazendo o quê? Ele tá bolado comigo que eu sei por causa do motivo que vocês já sabem. Logo, não tenho mais o que fazer aqui por hoje. - disse se levantando.

    Vendo que as garotas iam para o banheiro com as mochilas nas mãos, os rapazes foram até elas.

    - Vocês já estão indo embora ou é impressão minha? - perguntou Neto.

    Uma olhou para a outra com cara de ponto de interrogação. Qual resposta dariam sem que o ofendessem?

    - É que... - balbuciou Tainá.

    - Ah, por favor, gente... O Heitor e a Yedda já me deram um perdido legal. Foram embora e nem sei por quê. Aqueles vacilões. E vocês agora? São umas vacilonas, heim! -disse Neto com ares de chateado.

    - Não é bem assim, Neto. - disse Cecília.

    - Ah, não. É como então? Vocês três são vacilonas mesmo. Logo agora que ia ficar legal, né, Gaspar? - disse Otávio jogando uma indireta para o amigo tomar uma atitude com Cecília.

    Gaspar ficou um tanto constrangido, mas se conteve com a timidez. Agora estava decidido a ficar com Cecília, mas o que fazer para impedi-la de ir embora. Enquanto isso, Cecília ficou esperando que ele fizesse ou dissesse alguma coisa. Mas... ele nada fez ou disse. Então deu de ombros e virou as costas indo em direção ao banheiro.

    - Mas você é um mané mesmo, heim! - disse Otávio dando um cascudo no amigo.

    Neto olhou para ele e balançou a cabeça concordando com Otávio e o deixando ainda mais constrangido.

    Minutos depois, as três amigas voltaram arrumadas para irem embora.

    Tainá olhou para o namorado muito sem graça com o que havia rolado entre os dois. Ainda estava com a insegurança de ele terminar tudo com ela. Mas Neto logo se aproximou e disse:

    - Que carinha é essa, heim, princesa?

    - Você sabe, Neto. Não quero que fique chateado comigo nem que...

    - Nem que o quê? Tainá, eu entendo o teu lado e vou esperar. A hora que você achar que seja a certa pra rolar, vai rolar, ora. Não tem que ficar bolada com isso não. Eu não tô.

    - Não tá mesmo?

    - Não, amor...

    - Ah, é que seus amigos puseram pilha e... Pensei que isso tivesse te deixado ainda mais chateado comigo...

    - Fala sério, né, Tainá! E desde quando eu esquento a cabeça com pilha dos outros?!

    Tainá sorriu e abraçou o namorado. Tinha mesmo sorte de namorar um cara tão legal como Neto!

    Otávio então fez um convite às meninas. Naquela mesma noite haveria um baile de carnaval na W1.

    - Humm... Carnaval... Não é muito a minha praia não... - disse Naíra.

    - Ah, mas não vai ficar tocando só samba e axé não... Vai rolar outros tipos de música. Vai ser legal. E aí? Vamos? - perguntou Otávio.

    - É... pode ser... - respondeu Naíra não muito animada com o convite.

    - É... Talvez eu apareça por lá. - disse Cecília.

    - Fala sério, Cissa. Eu sei que você se amarra nessas coisas. Vai que rola alguma coisa interessante, heim? - disse Otávio apontando discretamente para Gaspar e com um sorriso insinuante nos lábios.

    Cecília era uma garota sagaz e compreendeu perfeitamente a indireta dele: Otávio estava querendo armar o terreno para ela e Gaspar. Tinha um aliado. Era sinal de que nem tudo estava perdido e de que poderia realmente rolar alguma coisa entre os dois. Então disse:

    - Tudo bem. De repente apareço por lá hoje à noite, tá, Otávio.

    - E você, Naíra? Vai também né? - perguntou Otávio.

    Naíra se surpreendeu com a pergunta. Não esperava o convite, ainda mais da parte dele. Mas já estava mais do que na hora de esquecer toda aquela história que havia rolado entre ele e ele. Afinal, quem vive de passado é museu! Então respondeu o mesmo que a amiga. Se desse, iria sim, apesar de odiar carnaval e músicas do tipo.

    O papo até rolou ainda mais um pouco e Otávio e Gaspar, que estava de carro, se ofereceram para levar as meninas em casa e no carro combinaram de se encontrar na porta da W1 sem falta.

    Naíra não estava muito empolgada não... Na verdade estava mais para ficar em casa vendo uns dvds do que para pular carnaval. Porém, acabou sendo convencida pela amiga, que agora estava mais do que empolgada.

    - Vê se não vai amarelar, heim, Naíra? - ouviu de Cecília assim que desceu do elevador.

    Em casa até que pensou sim, mas desistiu. Pensando bem, tinha mais que ir mesmo independente do que acontecesse. Afinal tinha dezessete anos e muita energia para gastar! E, além do mais, não tinha que deixar de ir por causa de Otávio, muito pelo contrário. De repente, poderia conhecer um cara legal lá e deixar de ser a boba que vinha sendo há anos por viver "encantada" por um cara só. Isso mesmo, parecia até encantamento, magia, ou sei lá o quê! Viver um tempão babando por um cara que deu provas e provas de que não queria nada com ela a não ser amizade e ponto final.

    Logo, logo encontraram-se novamente no elevador e foram levadas pelo motorista de dona Cibele até a W1 onde se encontraram com os garotos. Rubens também estava com eles e sua cara não era nada boa. Não demorou muito souberam o motivo: Emilene havia terminado o namoro com ele.

    - Como assim? Ela não comentou nada disso comigo. E olha que a gente conversou ontem mesmo. - disse Cecília inconformada com a notícia.

    - Bom, não sei por que não te falou nada. A gente terminou faz dois dias. - disse Rubens seriamente.

    Cecília e Naíra ficaram boquiabertas e só não estenderam mais o assunto porque estava na cara que ele não queria mais tocar mais nisso. Mas que ficaram curiosíssimas em saber o motivo, ah ficaram!

    Logo entraram na boate, que estava lotada!

    A música até que estava boa. Uma banda de axé vinda diretamente de Salvador animava o local e até Naíra que não estava nem um pouco a fim de dançar, acabou se empolgando e caindo na folia.

    Não demorou muito, Cecília resolveu partir para ataque, principalmente após um bom gole de vinho que tomou para dar mais coragem. Naíra, vendo-a beber, logo lançou-lhe aquele olhar de reprovação, afinal nunca a tinha visto beber bebida alcoólica. No entanto, era só um gole, pensou. O que poderia haver de mal num golinho só?

    Gaspar não teve nem tempo de dizer nada. Fora praticamente arrastado dali por ela para bem longe daquele tumulto do meio da pista.

    Apesar de tímida e de não se sentir muito à vontade ali, Naíra continuou dançando na pista. Agora estava sozinha e, por mais que tentasse disfarçar o quanto estava se sentindo um peixe fora d'água, não conseguia. Que vontade de ir embora! Porém, logo fora surpreendida por Otávio.

    - Oi. Tô vendo que a Cissa te deixou na mão e vim te fazer companhia. Posso?

    - Claro. - respondeu surpresa.

    Dançaram. Aliás, se jogaram na pista! Naíra dançou como nunca, até se surpreendeu consigo mesma! Até mesmo porque o motivo de toda empolgação não exatamente Otávio, mas sim porque não estava mais só.

    Logo começou a tocar uma balada e com aquele olhar de sempre que fazia qualquer garota tremer nas bases, Otávio a trouxe para si para dançarem juntinhos. E mais uma vez Naíra viu a cena se repetir: os dois dançando juntos, um climinha pintando entre e os dois e... Otávio tentou lhe beijar. Só que dessa vez para surpresa de ambos, Naíra recuou:

    - Não. Assim não.

    - Como assim?

    Naíra sequer lhe respondeu. Virou as costas e saiu andando para o lado de fora da boate onde estava mais fresco e menos barulhento e tumultuado. No entanto, inconformado com a sua reação, ele a seguiu.

    - O que é que tá pegando, heim? Não entendi... - disse Otávio assim que a alcançou.

    Respirou fundo. Pensou. Pensou. E pensou. Na verdade até ela estava surpresa consigo mesma. E disse:

    - Eu só não quero ficar com você, Otávio.

    - Mas...

    - Eu sei. Eu gostava de você, é verdade. Pra ser bem sincera, eu ainda gosto e muito. Mas não tô mais a fim de ficar com você só quando você quer. Porque no final das contas sempre sou eu quem sofre. A gente fica junto, eu me encho de esperança e um belo dia tudo acaba. E sabe por quê? Eu percebo que você não gosta de mim como eu gosto de você e que não passo de um passatempo pra você. E eu não quero ser passatempo nem seu nem de ninguém. Se é pra ficar comigo, tem que gostar de mim também. Senão, não rola.

    Otávio a escutava boquiaberto e quando ela terminou de falar, disse num tom meio sem graça:

    - Bem, Naíra, você não tá errada... Eu nunca quis te dar esperanças falsas...

    - Eu sei, mas acabou dando, sem querer, mas deu. Quando a gente gosta de alguém, qualquer coisa, gesto, atitude, palavra pode ser entendido como um sinal de que o que a gente sente é correspondido. Não sei, mas talvez você ainda não tenha passado pela experiência de amar sem ser correspondido.

    - Eu já passei.

    - Com a Luma? Bom... Não deixa de ser, né...

    Ele então olhou nos seus olhos, deu um suspiro e disse:

    - Sabe, Naíra, eu nunca quis te fazer sofrer. Eu juro. Eu gosto muito de você. Mas... Sei lá, acho que a gente poderia ficar junto, sabe? De repente...

    - Você não entendeu o que eu disse, Otávio? Eu não quero ficar com você. Ficar assim não. Chega. Eu só vou te beijar outra vez quando eu souber que você me ama tanto quanto eu te amo. Do contrário, prefiro ficar sozinha, tá?

    Tendo dito isso, mais uma vez o deixou para trás sozinho terminando de digerir tudo o que acabara de ouvir dela. Naíra sentia-se aliviada. Parecia que havia acabado de dar o seu grito de liberdade!

    Logo encontrou com Cissa que, aliás, não estava nem um pouco feliz.

    - Vamos embora? - perguntou Cissa.

    - Ué? O que aconteceu? Que cara é essa? - perguntou estranhando tudo.

    - Depois eu te conto. Eu quero é sair logo daqui. Vamos ou não embora?

    - Vamos. Pra mim isso aqui já deu no que tinha que dar...

    Então saíram sem ao menos olhar para trás.

    22h05 |
    Capítulo 32 – Dor de cotovelo, reviravoltas e surpresas... (parte 1)

    Com a partida de Emilene para São Paulo e com duas integrantes do Clube namorando firme, parecia que o Clube estava partido ao meio. Isto porque Tainá e Yedda passavam mais tempo com os seus namorados, enquanto que Naíra e Cecília estavam sempre juntas. Porém, só parecia mesmo, até porque uma das regras do Clube das Excluídas é que seriam amigas sempre e que nada as separaria, e neste “nada” estão incluídos os namorados, paqueras, ficantes e afins! Então sempre separavam um tempinho na agenda e se encontravam no Quartel General das Excluídas, que ainda era a casa de Naíra, e riam, botavam a fofoca em dia, enfim, tudo o que sempre faziam.

    Naquela tarde de sexta-feira, Tainá fora a última a chegar.

    - Aposto que tava com o Neto... Hummm...  Antigamente isso não acontecia... – falou Yedda só para provocar.

    - Ai, gente, o que isso?... – respondeu Tainá sem graça. – Na verdade, eu não estava com ele. Estava no meu treino, ou vocês se esqueceram disso?

    - Ih, Tainá, não precisa ficar se justificando não... Não tá vendo que isso é pilha da Yedda? – disse Naíra.

    Yedda caiu na risada. Adorava provocar a amiga só para ver o quanto ficava vermelha, toda sem graça. Era tão engraçado.

    Papo vai, papo vem, e dentre os muitos assuntos entrou a bola da vez: a mudança de Gaspar.

    - Nossa, ele mudou pra caramba... – disse Tainá. – Vocês se lembram de como ele era, todo bobão, esquisitão?

    - É verdade. Todo tímido, na encolha, na moita. A gente mal conseguia ouvir a voz dele na aula. – disse Naíra.

    - Ah é. Isso quando ele não começava a gaguejar. Aí é que ninguém entendia nada mesmo! – disse Yedda começando a imitá-lo.

    - É. Ele era mesmo muito tímido. Agora parece que tá mudando, ficando mais sociável. – disse Cecília.

    - Então ele não era tímido e sim anti-social. Até porque ele vivia sozinho, não conversava com ninguém. Parecia um bicho do mato! Agora que ele anda direto com o Otávio, com o Rubens e com a galerinha de sempre, o menino tá ficando até mais saidinho, tá virando gente... – disse Yedda.

    - Também, não é pra tanto, Yedda. Saidinho é o Rubens, o Otávio, o Heitor, o Neto... – disse Tainá.

    - O Heitor saidinho?! Olha o respeito, heim, garota! – retrucou Yedda com ares de quem não gostou muito do comentário da amiga.

    - E eu tô falando alguma mentira por acaso? Tímido ele não é... Muito pelo contrário... – respondeu Tainá.

    - É, gente, pensando bem, o Gaspar era um potencial candidato a ser o primeiro membro do sexo masculino do nosso Clube! – disse Naíra.

    - É verdade. – concordou com Cecília. – Nossa, quando eu namorava o “falecido”, ele era outra pessoa. Anti-social mesmo, assim como você disse, Yedda. Nunca vi Gaspar saindo para a balada com os amigos, indo a festas. Ele vivia trancado no quarto, lendo, ouvindo música. Tinha vez que ia lá e nem via o sujeito. Parecia que ele nem tava em casa, e olha que estava...

    - Ah, gente, mas ele também não tá tão soltinho, soltinho como os outros meninos não. Na festa da Emi, por exemplo, ele ficou na dele. – disse Tainá.

    - Na dele?! Quem te disse? Você tá é enganada, amiga! – disse Yedda com ares de bem informada.

    - Ué, por que, heim? O que você sabe que a gente ainda tá por fora, heim, “dona Yedda bem informada”? – perguntou Cecília curiosa.

    - O Gaspar ficou com a Leila, aquela do segundo ano, que, aliás, foi de penetra na festa. – disse Yedda.

    - É mesmo? Jura?! – disse Tainá.

    - Sério, ué. Nossa, muita cara de pau dela ir sem se convidada... – disse Yedda.

    - Eu não tô falando dela ter ido ou não de penetra, Yedda, se liga! Tô falando dela ter ficado com o Gaspar! Gente, tô boba... – disse Tainá.

    - Pois é, é verdade. Eles ficaram sim, que eu vi. Podem até perguntar pro Heitor que também viu. Aliás, ele zoou muito o Gaspar depois, botou a maior pilha... – disse Yedda. – Ele foram pra um cantinho super reservado lá no jardim da casa do Neto, bem no escurinho...

    - É, então quer dizer que ele é o maior come-quieto? Gente, tô bege! Quem diria, heim? O Gaspar... – concordou Naíra.

    Ouvindo as amigas, Cecília sentiu uma pontinha de ciúmes dele. Até então tinha certeza de que ele ainda era apaixonado por ela e que não ficava com ninguém como se a esperasse decidir por ele. Grande ingenuidade sua, pensou. Ingenuidade e, por que não, pretensão também. Afinal, ele não ficaria para sempre a sua disposição assim. Até porque desde os treze anos de idade que era paquerada por ele. Ele não perderia tanto tempo assim por sua causa, até porque já tinha perdido muito. Não só perdido, como sofrido, afinal não deveria ter sido nada fácil para ele ter assistido de camarote o seu namoro com seu irmão por um longo tempo.

    15h22 |

    - Que foi, heim, Cissa? Que cara é essa, heim? – perguntou Naíra percebendo seu semblante pensativo e um tanto emburrado.

    - Nada. Só pensando. – respondeu disfarçando.

    - Ih, não pensa demais não, senão dá cheiro de queimado. – caçoou Yedda.

    Porém, de nada adiantava Cecília ficar com dor de cotovelo por ele. Tinha que se conformar: havia se iludido mesmo ao pensar que o teria para sempre a sua disposição. Mas mesmo assim ficou chateada com isso.

    Naquela tarde voltou para casa muito pensativa.

    Se pudesse voltar no tempo, pensou, teria feito tudo diferente. Ao invés de ficar com Olavinho, teria ficado com Gaspar. Se tivesse ficado com ele, não teria sofrido a metade do que sofreu nas mãos do “falecido”. Porém, aos treze anos de idade sequer poderia imaginar que o garoto de quem gostava a faria de palhaça como fez anos depois. Além disso, o quesito aparência contou muito na época. Olavinho sempre fora o mais bonito, o mais gato, sem dúvidas! Com aqueles olhos verdes de gato dele... O corpo atlético, o charme... enfim. Já Gaspar não. Franzino, tímido, quase corcunda de tanto que andava com os olhos fixos no chão como se não quisesse olhar nos olhos dos outros. Mas por detrás daqueles óculos de lentes grossas sempre soube que havia um cara muito legal e especial e, reparando bem, até que ele era bonitinho... Tinha lá a sua beleza, o seu charme também.

    E agora, na sua nova fase, Gaspar demonstrava ter saído da casca e estava outro.

    “Eu sou uma burra mesmo! Parece até que gosto só de cara errado! Ninguém merece!”, pensava inconformada no quarto.

    Uma coisa era certa: a partir daquele dia, Cecília passou a olhar para ele com outros olhos. Cada vez que o via no colégio, no fundo suspirava. E o pior que agora que queria, ainda que secretamente, alguma coisa com ele, ele sequer olhava para ela. Muito mal dizia um oi quando a encontrava pelos corredores.

    Mesmo tendo se formado e entrado na faculdade, vira e mexe Gaspar, assim como Rubens e Neto, aparecia no Atenas. Mesmo não estudando mais lá, parecia que nada havia mudado, pois estavam sempre por ali.

    - Droga! – exclamou Cecília certa vez de raiva no corredor do primeiro andar do Atenas.

    - Que foi, heim, Cissa? Tá falando sozinha? – perguntou Naíra assim que a encontrou.

    - Hã? Nada... – respondeu com ares de chateada.

    - Iiiihhhh... O que é que tá pegando heim? – disse Tainá chegando em seguida.

    - Sei lá, a Cissa tá meio bolada... – disse Naíra.

    - Quem disse que eu tô bolada, heim? Por acaso eu falei alguma coisa? – disse Cecília irritada com o comentário.

    - Ai, não precisa ficar assim não, Cissa. Foi mal, aí... – disse Naíra.

    Cecília não disse nada, apenas fez uma cara de quem sabia que estava errada em todos os sentidos. Primeiro por ter dado um mole daqueles ao dispensar Gaspar e, segundo, por se irritar com isso e descontar nas amigas que nada tinham a ver com seus erros. Então se desculpou com a amiga e seguiram para o recreio.

    Somente Yedda é que não estava com elas. Aliás, há alguns dias vinha se sentindo muito mal.

    - Ai, gente, eu não tô bem não... – disse assim que chegou.

    - Que foi, heim? Nossa, você tá pálida!... – disse Tainá.

    - Você tá passando mal? Quer que a gente vá até a secretaria com você ver se eles têm um remedinho? – perguntou Naíra.

    - Não... Não vai adiantar nada. Esses enjôos vão e voltam. É o tempo todo assim. – disse Yedda.

    - Enjôos? Yedda, você não tá grávi.... – disse Cecília.

    - Vira essa boca pra lá, Cecília! Nem completa a frase! Isola. – disse Yedda interrompendo a amiga batendo na madeira do banco em seguida.

    - Então por que é que você tá aí tão enjoada heim? Você não é disso... – disse Cecília.

    - Sei lá, gente... Deve de ter sido alguma bobagem que eu comi... Ai, vou beber uma água e vou lá falar com o Heitor, tá? Beijinhos... – disse se levantando e saindo.

    As três amigas então se entreolharam e o pensamento foi o mesmo. Será que Yedda estava grávida? Afinal, como ela mesma dizia, não era sempre que Heitor usava camisinha quando transavam e remédio ela não tomava por medo de sua mãe descobrir no meio de suas coisas. Então, jogavam com a sorte e se arriscavam mesmo. Porém, nenhuma das três quis continuar cogitando aquela possibilidade.

    Tainá logo se levantou e foi encontrar com Neto que havia chegado ao colégio, enquanto que Cecília e Naíra permaneceram observando de longe a pelada que alguns garotos batiam no meio da quadra.

    - Naíra, posso te fazer pergunta?

    - Claro, Cissa. Manda ver!

    - Sabe quando a gente faz uma bobagem e a ficha demora a cair? Aí, quando ela cai, a gente se dá conta da besteira que fez e o mais que a gente que voltar atrás, não pode...

    - Bem... Você falou, falou e falou, Cissa. Mas eu sei bem o que você quer dizer. Parece coisa com coisa, mas como diz o meu pai, “para bom entendedor, um pingo é letra”, então... Você se deu conta de que deu mole de não ter ficado com o Gaspar enquanto ainda era tempo, né?

    - É... Você é mesmo muito inteligente, Naíra...

    - Não é questão de ser inteligente não, amiga... É que tá na cara mesmo. Desde daquele dia lá em casa quando a Yedda falou que ele ficou com a Leila que você tá assim toda bolada.

    Cecília suspirou fundo.

    - Fala a verdade, Cissa? Você gosta dele de verdade ou tá aí assim só porque ele não mais a sua disposição como você pensava?

    - Nossa, Naíra, você é tão sincera que chega a ser inconveniente, heim! Também não precisa ler a minha mente, caramba!

    Naíra riu e disse:

    - É como eu falei, amiga, tá na cara! Tá escrito na tua testa. Agora, vou te dar um conselho, apesar de não ser a pessoa mais indicada pra isso. Se você realmente gosta dele, vai em frente e invista! Acho que você ainda tem chance. Agora se você não tem certeza dos seus sentimentos, é melhor ficar na sua. Afinal, você, melhor do que ninguém, sabe o quanto é ruim sofrer por alguém que não gosta da gente de verdade. Então não queira isso nem pra você nem pra ele.

    Cecília concordou com a amiga.

    15h21 |
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